Suas flores caíram ao pé da mesa. Suas palavras resvalaram em uma quase muda confissão, e você não veio. Pequena, te faço confissões sem fim. Busco seus olhos e seus risos frouxos e todo o encanto que me entrelaçou as pernas.

Te decoro em um sem fim de gestos, e por deus, te aceito. Sem cobrança alguma. Te aceito em demoras ou estadias, em vontades de ficar ou visitas escassas. Mas te preciso.

Pequena, os dias correram mudos e eu me tingi cada vez mais de seus tons. Agora tenho sua aparência,  seu ritmo, danço pela casa ao som de seu timbre. Não sei querer em calmaria. Busco os olhos e devoro corpo e alma dos meus afetos. Te engoli. Te dei moradia em meu corpo e cerne, e não restou nenhum pedaço meu. Sou toda afeto por ti.

Então te aceito em seus defeitos. Tomo suas palavras vagas. Recebo suas poucas vindas ou sua inesperada vontade de mim. Vibro com suas confissões e, por fim, me dilacero quando seus cigarros já não queimam ao lado dos meus.

Quado a casa fica muda, quando suas respostas soam indiferentes, quando seus dias correm longos longe de mim. Não que sua ausência me seja desoladora, mas é o seu não estar em mim que me mata. Pois, porra, posso viver dias sem fim de amor por ti em distância. Mas não posso suportar você não estar, com todos os seus toques e entranhas, em mim. Aceito que não esteja, mas não suporto. Aceito, mas não respiro. Aceito, mas não floresço.

Meus berros mudos ecoaram para dentro

Há uns dias os papeis andavam vazios. As cartas espalhadas pela mesa permaneciam vagas, frias, mudas. Um não saber dizer tudo que andou me pesando o peito.

Mas os dias correram bem, até que calmos, até que esperançosos. Se eu te escrevesse sobre a agonia de novos caminhos, você ainda leria? Porque tu me foi a melhor e a pior das flores. Uma rosa de cor vívida e que, por centenas de vezes, me roubava os tons. Um tom que, incansável, tornou meus olhares um retrato em sépia. Você me foi uma flor que impregnou seu perfume em mim, mesmo quando os caminhos da vida me impediram de respirar. Me foi a beleza de um flor exime, plantada no meio da minha alma, e ainda assim foi quem espetou sete desamores em meu peito. Você ainda me leria se minhas falas não fossem mais pra você?

Porque elas foram, porra. Por dias e horas e cafés esfriando e a porra do cigarro queimando entre meus dedos, minhas falas e letras tortas foram pra ti. Entre dias mudos e céus cinzentos, eu te confessei afetos em cada linha, e morri no não saber dizer em tons audíveis. Meus berros mudos ecoaram pra dentro.

Mas os finais são espaços repetidos. Os fins vêm com uma sobrecarga psíquica de quem puxa lentamente o ponto da costura e, num segundo, toda a linha tracejada se esvai. Calma e súbita. Eles rompem cada ponto do tecido e numa espera sórdida, essa união é um desmanche fugaz.

Mas você, de longe, ainda que dentro de mim, ainda que fazendo moradia em minha alma, cerne, me leria? Porque, deus, não é mais sobre você. Não pode e não haverá de ser. Ainda que haja toda uma presença tua em mim, ainda que haja um sem fim de tuas memórias e uma dor infindável que ainda me impede de escrever boas palavras, eu puxei a linha. E metade de mim se esfacelou no chão frio do seu não amar. Se quebrou em mil pedaços no chão duro do seu não estar.

Agora, por fim, não mais está. Aos menos em minhas linhas sujas. Em minhas linhas mortas.

O amor é uma data marcada

Os retornos são incertos e o amor se afoga no quase ser. Ah, pequena, eu que me agarro às liberdades e morro sufocada de amor. Minha insegurança me recobre essa noite. Nenhum frio hei de me assossegar.

Minhas dores se bordam entre o bem amar e o não saber deixar o amor florescer.

Te quero livre e me apego ao respiro frouxo, sem jamais dar brecha ao sufoco. Mas me calo em solidão, e me pego decorando seus olhos vagos. Seus olhos mudos. Por deus, seus risos tortos me desconcertam e cada vez que seus olhos cruzam com os meus um alvoroço de um amor cruel me devasta.

Não, minto. Não é amor. Não amo o que me permite o toque. Enquanto, por deus, te admito de modo cruel, que o toque, o roçar da pele nua, me afasta do amor. É um desejo cálido, um bem te querer sôfrego, te quero pela necessidade de te reconquistar, ainda que tu me escapes por entre os dedos. Se me és amor, me és em quase certeza. Então sei que me retorna e não te quero mais, apenas te amo. Não há querer que se sustente no retorno. Quase te amo porque te deixo livre e longe de minhas certezas.

Te amo enquanto não sei ao certo se te tenho. Te amo por não saber amar nada mais do que vem depois de ti e de mim. Te amo na mais pura admiração de quem tu es e, eu, humana e tolamente, não poderei à esmo algum ser o que te basta. Por isso há de dizer amor.

Sua segurança, sua certeza, todo você que, te confesso, é boa demais pra mim. Porra, você é boa e doce demais pra mim. Tua presença me fere e me alimenta. Me causa ofuror e um brilho em meus olhos, mas me mata por dentro. Mata porque não posso e não poderei ser tudo que tu merece. Sou só esse vazio eu. Esse vago eu. Esse eu que sei que haverá de te cansar. Não há novidades em mim. Você me és novidades e um certeza de que não posso me bastar de ti.

O abandono agora me é uma data marcada. Sei que há de me deixar, mas o amor floresce. O amor me mata antes de me deixar morrer.

um nada inexorável repetido à exaustão

Me agarrei a você numa sôfrega esperança de sentir. Alguma coisa, coisa qualquer. Um fio tênue de arrepio me percorrer o corpo, ou apenas a ponta dos dedos. Mas que me fizesse sentir de novo. 

Me apeguei aos seus timbres e pecados, me vesti de cada bem e mal me quer seus para que, talvez, eu me afastasse desse sujo eu. Qualquer coisa que  me levasse de mim, me desobrigasse a pensar. Pois me prendo nesse vazio de mim, tentando sentir de novo um querer, uma esperança, uma dor, mas só resta um eco surdo, um nada inexorável repetido à exaustão.

Vou levando meus dias numa rotina segura. Se nada me desassossega, também não me fere a ausência de emoção. Fico segura em meus dias fatigados de não viver. Então, em lapsos de precisar sentir, rompo os limites. Uma tatuagem, um salto de para quedas, drogas, três amores, álcool, um corpo estranho, uma agulha velha perfurando a alma. Caixas de remédio e mais um suicídio. Não importa. Não sinto mais nada e me esgoto em mim. Morrer é um ato interno. De novo, desisto por fim ao corpo, já que a morte venceu a alma esta noite. E em todas as anteriores.

E se a tristeza me veste como um manto pesado demais, do que me adianta permanecer costurando esses panos em meu cerne? Os fantasmas que me vestem são os mesmos que me matam de frio.

Mas tudo bem. Não me adaptei ao mundo. As pessoas me cansam e não entendo ao certo como elas permanecem bem. Todos sabem um segredo tolo que eu, desumanamente, não consegui descobrir.

Mas pouco importa. Me debrucei em meus limites. Tentei sentir, viver, tentei qualquer porra que me afastasse de mim. Falhei miseravelmente.

Fiquei presa em mim.

São períodos difíceis. Escapismo tolos. Mas quais não são? Os meus apenas caminham em limites extremos. Um limiar repetido e seguro. Um pulo arriscado. Não senti nada. Então o nada me abraça de novo. Os suicidas sabem de uma coisa que a maioria não sabe: morrer não dói. Ou a gente que já não sente.

Hoje, por fim, rasguei suas últimas memórias. Arranque da parede sua foto amena. Me desfiz da gaveta de pequenas lembranças tua. Algumas cartas e presentes, um lenço branco e uma dor pesada que insisti em carregar, mesmo não havendo mais tempo assegurando esses memórias.

Você foi um período doce de mim. Me foi dias sem fim de alegria e euforia. Me foi dias de riso frouxo e um afeto retumbante. Você me bordou alegrias novas e todo o ensejo que um amor há de bordar. Mas não vou maia falar de ti, pois bem sabes que muito falei. Que por dias e dias amargos eu te fiz confissões e cartas sussurrantes. Mas o que foi bom de ti ficou.

Não carrego mais as lembranças insistentes. Do mesmo modo que creio que tu não me carregas mais. É o trajeto natural. Tentei guardar em mim suas vindas pois fui o melhor de mim em tua presença. Fui meu melhor riso e melhor choro. Fui meu mais sincero sentimento, e compartilhei toda a vontade de continuar sendo esse novo eu.

Mas o fim é um abisno inevitável. E a dor corrói tudo que construímos.

Agora sua foto não está mais na parede.. mesmo a ausência tendo sido tenra, pesada, mesmo que a dor não nos deixou sermos a intimidade da cama compartilhada, e dos dedos entrelaçados novamente, eu insisti em te deixar ali pra ser aquele alguém que sorriu.

Mas se não nos reconhecemos mais, se agora somos novamente dois corpos estranhos que não sabem eitmar novamente as intimidades e amores e palavras doces, de que valhe deixar a porra da tua lembranca aqui?

Não voltou a ser quem te fui, do mesmo modo que não voltaremos àquela sintonia de um só ser em dois corpos. Ou dois corpos num ser que há de ter duas almas.

Hoje, por fim, me despedi de tudo teu. Não há de ter mais memórias, como não há maia presença tua em mim. Ainda assim, te repouso num canto bom de mim. Nenhuma dor, nenhuma mágoa. Você não soube voltar e eu não posso mais esperar na porta por alguém que não se dispõe a abrir o portão.

IMG_20160208_222951Você joga suas roupas brancas e suas palavras cruas. Agora o chão da sala está recoberto de amores mal amados, sentimentos mal digeridos. A porra do chão está repleto de palavras mal ditas. Malditas palavras.

Porque você não soube ficar, não soube tracejar esses sentimentos todos e tolos junto comigo. E eu que fui amor, me sentei sozinha na beira de um abismo imenso. E não houve amor teu. Mentira, houve. Em algum canto seu, entre seus dedos e suas palavras tímidas, existia o que há de ser afeto. Mas o amor não basta.

Os sentimentos são correntes de energia egoístas que, por vezes, se unem ao egoísmo alheio. A minha corrente amante me imobiliza. Me leva ao auge eufórico e me dilacera meu íntimo. Você não soube amar meus pecados, meus ensejos, não soube olhar pros meus abismos. Mas me amou. Mesmo quando o amor não mais bastou.

Agora você mistura meu afeto no café amargo. E você me cospe palavras cruas. A gente pensa que não dá pra amar os outros sem amar a si próprio, mas te digo que dá. Num amor menos egoísta e, até, mais cruel. Eu te amei.

Achei em ti a dor e o medo que me seguram em teus olhos. Achei em ti o riso e a segurança que não carrego. Achei em ti o timbre que não alcanço. Então fui amando. E morrendo. Pois amo a ti num espaço que me é meu e teu. Por mim e por nós. Morro na asfixia de ser amor qualquer. Porque sozinha eu sou esse eco, esse ser mudo que não sabe e não experimenta nenhum tipo de afeto.

E talvez seu medo pesou. Suas inseguranças pesaram. Talvez sua alma toda pesou pelo peso do meu afeto. Te fui em cada instância. Te fui em cada tracejo. Te fui demais porque não sei me ser solitária. Não sei ser nenhum amor próprio. Não ser me ser e ter e me bastar.

Mas no chão dessa sala se estilhaça meu afeto. Por mim e por ti.

me tranquei num fundo de minha alma só para ter mais espaço para te ser

O amor me invadiu como uma ventania devastadora. Escancarou as portas do meu peito, derrubou os papeis da mesa, bateu as janelas. O amor abriu as cortinas, tirou o pó dos móveis. No começo, o amor arejou a casa. Ainda que adentrando com tamanha intempestividade, trouxe novos perfumes, carregou coisas velhas e papeis amassados. No começo o amor ocupou o vazio, ocupou a casa, o corpo e sossegou a alma.

Mas note como os afetos são dores singulares que, num ciclo tórrido, se repetem. Em proporções diferentes, em timbres e cores únicas mas com essa mesma frequência resultante em corações estilhaçados e almas feridas.

É uma constante sôfrega, mas real. Você leva um bom tempo para descobrir-se. Você precisa da solidão para entender os ensejos e os desejos, precisa ser sua única companhia para saber os gostos e as vontades que te despertam. Então, em meio à tarde de sol ou qualquer outro dia banal, uma repentina necessidade de complemento se instaura em ti. A solidão torna-se um fardo, ou um buraco te consome, ou um outro corpo, que tem uma solidão inteira também, lhe faz falta.

E se, por algum motivo – sorte, deus, destino ou acaso – a vida lhe concede o dividir de solidões, você começa um processo lento de destruir o amor. Destrói-se pois não há de se amar muito tempo. Os sentimentos se consomem, sempre. No início ainda persiste a ilusão amante do outro, mas aos poucos, com o passar lento dos relógios, enquanto os cafés esfriam sobre a mesa e os cigarros agradam ou incomodam, enquanto as músicas são rejeitadas, as pequenas indecências, os pecados sujos, os incômodos e as decadências emocionais começam a surgir.

Mesmo que a gente vá aceitando, pois amar é também amar esses pontos sujos da alma alheia, o afeto se pontilha, se fragmenta.

Pobre de nós que vamos nos moldando ao nosso amor. Eu, por deus, fui me contornando de seus desejos, me tingindo de seus tons, fui aceitando cada sorriso e cada ojeriza por ti. Fui me moldando em seus dias, entrando num ritmo que a princípio eu não sabia ou não podia acompanhar. Perdi o fôlego uma centena de vezes. Mas a gente vai abandonando nossos egoísmos, nossas vontades, nossas crenças. Eu me torno um reflexo torpe dos meus amores. Eu me tornei um imitar do teu riso e decorei seus trejeitos. Adotei seus gostos, seus filmes, comprei seus cds. Eu me tranquei num fundo de minha alma só para ter mais espaço para te ser.

Depois de um tempo o amor vira rotina. Depois de um tempo a rotina cansa e o amor já se tornou um fragmento dos dias quentes. O amor escorreu entre meus dedos e feneceu rente aos meus pés. Entre mim e você caíram as palavras frias, no chão da sala se espalharam lembranças e ensejos, mas nenhum afeto misturado.

Mas não há culpa ou sentimento nefasto nisso tudo. É uma constante. Depois de um tempo, os pequenos incômodos tornam-se falhas doloridas, as loucuras, antes engraçadas, tornam-se cicatrizes que vez ou outra sangram.

Mesmo assim, continuo lotada de ti. E suas músicas que nada me agradam, continuam tocando na sala vazia. E seus pecados continuam espalhados pela casa. E seu perfume ainda está impregnado nas paredes. E tanto de você está em mim.

É um processo lento e cruel. Por deus, como pode o amor ser essa vastidão de negar a si mesmo? Depois de um tempo há de vir um outro alguém. Sim, depois de certas voltas do relógio, nossa alma se abre novamente. Então recebemos essa nova ventania, que nos devasta a casa, como se nunca tivesse havido amor nenhum.

Mas não se engane. Nenhuma casa recebe intacta novamente os vendavais de afeto. Digo, aquela solidão que havia, antes de qualquer amor e afeto, se quebrou, se moldou em novos corpos, em novas almas. Depois do caos, mesmo que a solidão para se recompor seja longa, você já foi ferido pelas dores alheias, e pelos pecados alheios, e pelas loucuras alheias. As paredes de casa podem ser pintadas, mas sempre carregam as marcas desses corpos passados. Carregando cicatrizes e memórias. Mas parece tudo tão estranho e inesperado. Um susto em meio àquela tarde ensolarada em que um vazio de afeto te invade.

Os ventos sopram forte do lado de fora, mas agora minha solidão está num imenso abismo. O amor não escorreu entre meus dedos, ele corroeu minha pele, perfurou minha carne. O amor feneceu diante meus olhos e me roubou o ar. Por fim, ele se foi e levou a casa junto.

despoeme (se)

Se estiveres atento e por um minuto
apenas
tenha me visto além dos risos
falsos e
contornos amenos,

sei que reparou nos buracos d’alma, nos
monstros em meus bolsos, sei que
percebeu o peso dos fantasmas.

Escrevo sobre flores mortas e amores
abandonados.
Você pode estar nas pétalas caídas e eu
nos abandonos constantes

Ou, quem sabe, seja eu os cigarros
mal acabados, as bebidas amargas, seja eu
a porta esquecida entreaberta.

Me sinto uma flecha cega
Me sinto uma lança perdida entre o arqueiro e o alvo

Perdidos entre árvores e
telas
e dias cinzas

São flechas tortas, alvos nulos e
ninguém treinou a mira e
ninguém acertou o alvo

Meu peito foi atravessado pelo desamor comprimido e
estilhaçado e
se partiu em cem fragmentos incoláveis
Inaudíveis em cada caco caído ao chão
E invisíveis estilhaços que juntos era eu

E eu quem sou?
E eu

Silêncio
Silêncio
Silêncio

Morri e sequer fiz a falta que alguém me fez
Não fui nada
Morri muda

E meu socorro ainda ecoa nas linhas tortas. Mas ninguém sabe ler um rabisco de sangue.