me tranquei num fundo de minha alma só para ter mais espaço para te ser

O amor me invadiu como uma ventania devastadora. Escancarou as portas do meu peito, derrubou os papeis da mesa, bateu as janelas. O amor abriu as cortinas, tirou o pó dos móveis. No começo, o amor arejou a casa. Ainda que adentrando com tamanha intempestividade, trouxe novos perfumes, carregou coisas velhas e papeis amassados. No começo o amor ocupou o vazio, ocupou a casa, o corpo e sossegou a alma.

Mas note como os afetos são dores singulares que, num ciclo tórrido, se repetem. Em proporções diferentes, em timbres e cores únicas mas com essa mesma frequência resultante em corações estilhaçados e almas feridas.

É uma constante sôfrega, mas real. Você leva um bom tempo para descobrir-se. Você precisa da solidão para entender os ensejos e os desejos, precisa ser sua única companhia para saber os gostos e as vontades que te despertam. Então, em meio à tarde de sol ou qualquer outro dia banal, uma repentina necessidade de complemento se instaura em ti. A solidão torna-se um fardo, ou um buraco te consome, ou um outro corpo, que tem uma solidão inteira também, lhe faz falta.

E se, por algum motivo – sorte, deus, destino ou acaso – a vida lhe concede o dividir de solidões, você começa um processo lento de destruir o amor. Destrói-se pois não há de se amar muito tempo. Os sentimentos se consomem, sempre. No início ainda persiste a ilusão amante do outro, mas aos poucos, com o passar lento dos relógios, enquanto os cafés esfriam sobre a mesa e os cigarros agradam ou incomodam, enquanto as músicas são rejeitadas, as pequenas indecências, os pecados sujos, os incômodos e as decadências emocionais começam a surgir.

Mesmo que a gente vá aceitando, pois amar é também amar esses pontos sujos da alma alheia, o afeto se pontilha, se fragmenta.

Pobre de nós que vamos nos moldando ao nosso amor. Eu, por deus, fui me contornando de seus desejos, me tingindo de seus tons, fui aceitando cada sorriso e cada ojeriza por ti. Fui me moldando em seus dias, entrando num ritmo que a princípio eu não sabia ou não podia acompanhar. Perdi o fôlego uma centena de vezes. Mas a gente vai abandonando nossos egoísmos, nossas vontades, nossas crenças. Eu me torno um reflexo torpe dos meus amores. Eu me tornei um imitar do teu riso e decorei seus trejeitos. Adotei seus gostos, seus filmes, comprei seus cds. Eu me tranquei num fundo de minha alma só para ter mais espaço para te ser.

Depois de um tempo o amor vira rotina. Depois de um tempo a rotina cansa e o amor já se tornou um fragmento dos dias quentes. O amor escorreu entre meus dedos e feneceu rente aos meus pés. Entre mim e você caíram as palavras frias, no chão da sala se espalharam lembranças e ensejos, mas nenhum afeto misturado.

Mas não há culpa ou sentimento nefasto nisso tudo. É uma constante. Depois de um tempo, os pequenos incômodos tornam-se falhas doloridas, as loucuras, antes engraçadas, tornam-se cicatrizes que vez ou outra sangram.

Mesmo assim, continuo lotada de ti. E suas músicas que nada me agradam, continuam tocando na sala vazia. E seus pecados continuam espalhados pela casa. E seu perfume ainda está impregnado nas paredes. E tanto de você está em mim.

É um processo lento e cruel. Por deus, como pode o amor ser essa vastidão de negar a si mesmo? Depois de um tempo há de vir um outro alguém. Sim, depois de certas voltas do relógio, nossa alma se abre novamente. Então recebemos essa nova ventania, que nos devasta a casa, como se nunca tivesse havido amor nenhum.

Mas não se engane. Nenhuma casa recebe intacta novamente os vendavais de afeto. Digo, aquela solidão que havia, antes de qualquer amor e afeto, se quebrou, se moldou em novos corpos, em novas almas. Depois do caos, mesmo que a solidão para se recompor seja longa, você já foi ferido pelas dores alheias, e pelos pecados alheios, e pelas loucuras alheias. As paredes de casa podem ser pintadas, mas sempre carregam as marcas desses corpos passados. Carregando cicatrizes e memórias. Mas parece tudo tão estranho e inesperado. Um susto em meio àquela tarde ensolarada em que um vazio de afeto te invade.

Os ventos sopram forte do lado de fora, mas agora minha solidão está num imenso abismo. O amor não escorreu entre meus dedos, ele corroeu minha pele, perfurou minha carne. O amor feneceu diante meus olhos e me roubou o ar. Por fim, ele se foi e levou a casa junto.

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