um nada inexorável repetido à exaustão

Me agarrei a você numa sôfrega esperança de sentir. Alguma coisa, coisa qualquer. Um fio tênue de arrepio me percorrer o corpo, ou apenas a ponta dos dedos. Mas que me fizesse sentir de novo. 

Me apeguei aos seus timbres e pecados, me vesti de cada bem e mal me quer seus para que, talvez, eu me afastasse desse sujo eu. Qualquer coisa que  me levasse de mim, me desobrigasse a pensar. Pois me prendo nesse vazio de mim, tentando sentir de novo um querer, uma esperança, uma dor, mas só resta um eco surdo, um nada inexorável repetido à exaustão.

Vou levando meus dias numa rotina segura. Se nada me desassossega, também não me fere a ausência de emoção. Fico segura em meus dias fatigados de não viver. Então, em lapsos de precisar sentir, rompo os limites. Uma tatuagem, um salto de para quedas, drogas, três amores, álcool, um corpo estranho, uma agulha velha perfurando a alma. Caixas de remédio e mais um suicídio. Não importa. Não sinto mais nada e me esgoto em mim. Morrer é um ato interno. De novo, desisto por fim ao corpo, já que a morte venceu a alma esta noite. E em todas as anteriores.

E se a tristeza me veste como um manto pesado demais, do que me adianta permanecer costurando esses panos em meu cerne? Os fantasmas que me vestem são os mesmos que me matam de frio.

Mas tudo bem. Não me adaptei ao mundo. As pessoas me cansam e não entendo ao certo como elas permanecem bem. Todos sabem um segredo tolo que eu, desumanamente, não consegui descobrir.

Mas pouco importa. Me debrucei em meus limites. Tentei sentir, viver, tentei qualquer porra que me afastasse de mim. Falhei miseravelmente.

Fiquei presa em mim.

São períodos difíceis. Escapismo tolos. Mas quais não são? Os meus apenas caminham em limites extremos. Um limiar repetido e seguro. Um pulo arriscado. Não senti nada. Então o nada me abraça de novo. Os suicidas sabem de uma coisa que a maioria não sabe: morrer não dói. Ou a gente que já não sente.

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