se as noites te trouxerem vazios mais agudos do que os teus discos novos

As músicas chorosas ainda ressoam pela casa. As bandas calmas, ainda que doces, fazem som nesse vazio que se instalou. Entre um suspiro e outro, entre um respirar pesado que tenta extirpar essa dor interna, eu prendo a respiração. Seguro firme e quase morro de asfixia, só para me dar a certeza de que não há mesmo nenhum barulho na casa. Nenhum ruído no andar de cima que denuncie seus passos vagos. Nenhum abrir de porta, nenhuma respiração para dividir os desassossegos. Mas a certeza é um soco dolorido no estômago. Não há barulho. Não há mais passos seus apressados pela casa. E ainda que as paredes estranhamente insistam em exalar seu perfume, não há vestígios tangíveis de ti.

Mentira. Há pela casa fotos tuas e roupas esquecidas. Há o quadro pendurado na parede tão  mais vazia depois de tua partida. Há tuas xícaras empilhadas no armário. Há tuas garrafas de bebidas amargas e vinhos vermelho-veludo, da cor do meu sangue. Há teus discos que insisto em ouvir noite após noite – deus, quem saiba assim a saudade aperte e tu retorne. Há teu caderno rabiscado e tua caligrafia que já me escrevera belas coisas, e hoje, porra, hoje termina vaga numa página qualquer, com palavras mal ditas, mal digeridas. Malditas palavras que eu engoli e vomitei um sem fim de vezes, mas nenhuma delas bastou para que hoje fosse tu quem eu devoro. Mas entre tudo que há de ti nessa casa e nesse assombro de escárnio meu, não há o que me salva: você.

Mas os telefones não tocam mais. Ou eu não os ouço. Me afundo nesse sofá que, deus, acredito já ter sido de um marrom mais vivo. Seu café costumava esfriar repousado no braço sujo desse sofá desconfortável. Só eu sei quantas vezes, nesses últimos dias, retirei do gancho esse telefone e disquei, mesmo sem saber número algum, só pra ver se tu me atendia. Não atendeu. Não ligou também. Os dias foram cruéis e as noites indigestas. O sol não nasceu, tampouco houve paz ou sossego. Houve um caos enfadonho. Houve o silêncio me atormentando e, logo eu que sempre gostei da paz dos sons mudos, agora berro sozinha para que – sabe deus – você me ouça.

Se ouvir, se sentir que tua solidão tem apertado o peito, se os dias pesarem como me pesam, e se as noites te trouxerem vazios mais agudos do que os teus discos novos, me retorna. Me telefona. Os cafés ainda esfriam mais doces aqui. Sua presença escora em mim afável quando não é sua ausência que me corrói as entranhas. Você ainda dança ao som dos velhos discos. Minha respiração ainda procura a tua entre os cômodos de casa. Entre os cômodos da alma.

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