Toques de retorno

São sete noites frias e teu perfume ainda exala da pele minha. São três flores mortas derrubando as pétalas ainda que murchas no chão frio. Mas não é sobre solidão e nem medo, não é sobre a agonia da espera, nem o passo lento dos ponteiros. São copos esquecidos e seu batom marcado em cada um deles. Mas não é sobre ausências ou amor não correspondido. São salas quietas, são telefones mudos e nenhuma certeza de onde seu corpo habita.

O amor sempre me pareceu um abismo egoísta. Uma certeza de dever estar exatamente onde meus olhos pudessem alcançar. O amor, pra grande maioria, é um caos possessivo. Mas eis que teus dedos não entrelaçam os meus, eis que teus boca não toca a minha. Eis que, nesse exato instante, eu repouso em meu sofá e apenas deus sabe por onde seu corpo se entranha. Mas o afeto meu me assossega, e tuas palavras enfim me asseguram que tu me retornas. Em amor. Porra, em amor e desejo.

E mesmo que seu silêncio de partida não me dê garantia alguma, em mim, num sem fim de compreensão, eu sei que a alma tua hei de retornar intacta. O corpo teu hei de me retomar. Seu perfume ainda será o mesmo, e sei que a pele tua hei de me bordar. Duas, três, uma centena de vezes.

Mas, caso não complete uma centena, apenas te desejo que a gente enfim se baste em duas ou três estadias. Que tu seja o que me basta por essas visitas todas. E que eu seja o suficiente para que teus retornos sejam plenos.

Por onde anda agora o corpo teu e o riso teu, tampouco me importa. Mas que venha e me tome de alma e ensejos. Ainda tenho dedos que querem os dedos teus por duas, três, bem mais que uma centena de vezes.

E agora eu repouso ao lado teu e, por deus, ainda que teu sono me seja exteriorização do mais humano sentimento de calmaria, me recurso a dormir. Me apego à sua afeição doce, amena. Me pego e me apego aos seus traços relaxados e me renuncio em todas as esferas a perder essa imagem. Eu passaria um sem fim de dias te olhando. Como se, por medo ou receio, o amanhã não me garantisse que o amor acorda comigo, que teus toques afáveis vão me fazer sentir esse afeto que me transborda.

Nada sugere que teu corpo pode não mais repousar aqui, mas o mínimo tracejar incerto do teu timbre nas minhas manhãs me causa aflição e um caos insuportável. Eu sei, o amor se repete egoísta mesmo quando tudo é liberdade. O amor é o mais sórdido representar do fim exatamente por se romper quando tudo nos parece um pisar sólido e seguro. Não quero me debruçar na minha solidão. Agora me recubro de cada mancha da pele tua. Nenhuma noite pode me roubar tua respiração. Mas o amor é um sujeito sujo que escapa no fim da noite. Sem bilhetes, sem afeto. Só o espaço inocupado de quem já foi bem mais do que calor numa noite fria.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s