Adorno

Gosto do vazio da sua foto. Gosto de como sua feição solitária me incomoda. Gosto, acima do gosto que tenho por ti, de como aquela foto calma e desassossegada me causa um sem fim de ternuras, um te querer mais que bem-querer. Uma vontade louca de transpor o papel. Um gesto de emoldurar a foto tua em mim. Adornar, num tecer dócil, você em mim.

Porque ali, naquele papel meio amassado, eu vejo todos os pontos doces de ti. Vejo seus olhos curiosos, seu riso frouxo. Mesmo que você sequer sorria na foto. Vejo seus toques, vejo seu timbre. Sim, vejo. Num misto de memórias e sinestesia, eu recobro cada balançar de mãos, cada vez que me riu e olhou pro lado, num ato que vaga entre o charme e o desconcertar-me.

Recobro, por deus, seus detalhes, seu jeito meio solto de caminhar, seu modo de ser exatamente um encanto único, sem questão alguma de ser. Logo eu que não andava reparando em muitos olhos alheios, me prendi aos seus. E logo eu que nunca me lembro de nada, decorei sua foto, sua roupa, cada gesto ameno e sutil.

Sua foto revelada em minha pele, em minha alma. Sua foto em dezoito tons e filtros. Seu retrato me dói em timbres de afeto. E mesmo que apenas em foto, em imagem estática, todos os seus dedos e toques me recobrem. Me vestem. A solidão aflita da sua foto me fere em tilintares de escárnio. Seu timbre me percorreu três vezes. E sequer preciso te ver para vibrar perdida nos seus olhos. Mas olho. Olho. Olharia por toda uma vida e uma pouco mais.

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