Os desafetos não apagaram as brasas, mas queimaram a alma

Você tá sentindo a mesma coisa que eu? Digo, você tá sentido, pequena? Alguma coisa, ainda que coisa qualquer? Te pergunto num tom sôfrego, em meio a um riso nervoso. Te pergunto entre um cigarro que queima os dedos meus. Mas nada me amarga mais a boca do que o seu não estar.

Porque, porra, você não tá. A gente vai deixando de estar aos poucos, mas você bateu a porta e esqueceu de retirar suas coisas de mim. Deixou as paredes manchadas, as janelas estilhaçadas. Deixou meu espelho com teu reflexo. Deixou a carteira de cigarros que agora eu fumo. Deixou o cinzeiro cheio e minhas reservas de afeto esgotadas.

Eu queria passar um café, mas os cafés me lembram suas noites em claro. Eu queria o silêncio, mas ele me sucumbe um ardor de casa vazia. Eu queria dobrar suas roupas e fechar as portas do armário e do peito. Mas, por deus, sempre há alguém que sente mais, que zela pela presença e sangra as ausências com mais ensejos do que o outro. Porra, quem dera não fosse eu.

Mas eu retorno. E aceito seus retornos. Ainda que vagos, ainda que espaçados e sem nenhum tilintar de afeto. Ainda que suas palavras sejam sujas e cruas e sórdidas, que suas partidas me firam feito uma flecha cega. Aceito suas vindas com timbres doces e me despeço em dores de um amor que eu, e tão somente eu, tenho sentido.

Mas aceito. Ainda que em migalhas, borrões e uma mancha torpe no espelho. Ainda que eu queira o reflexo nítido de um amor que te é só uma foto sem foco. Ainda que eu persista no silêncio, no canto escuro de um quarto vazio. Do meu eu escancaradamente oco. Ainda que eu morra em cem folhas brancas. Me sento no canto do meu sofá que fora teu e aguardo seus retornos. E te retorno, te recebo, te venero. Te sou boca, corpo e alma. Mais alma do que corpo. Mais três noites claras do que qualquer lampejo rítmico.

Tudo bem. Quem dera não fosse eu a vulnerável doação, quem dera não fosse eu pelos dois. Mas sou por mim e por ti. Por nós. Sou a parte que te ama e a que me mata. Uma gota de sangue no meio da testa pingando a cada minuto, me escorre pela face e tá manchando o chão. Mas a dor tem o tom da sua solidão.

Quando voltar, me traz cigarros. Café pronto. Teu corpo vazio de alma. Me traz alguma coisa que me dê um resquício de sossego que teus olhos já fizeram queimar em meio ao terceiro cigarro sujo de sangue e minha alma.

 

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