despetalar

O cabelo preso e o pescoço nu. Um corpo todo esguio à minha frente e, por deus, juro que quase me fiz crer que era um outro corpo e essência que me prenderam a vista e a atenção e. Quase respirei em alívio de ver um outro ser que não você. Pois, porra, eu tenho te visto aos montes por aí. Tenho achado seus olhos e seus traços e a merda do seu perfume está em cada corpo que passa por mim. Ainda que não você. Nunca, por deus, nunca você.

São seus tracejos, seus olhos semicerrados, são as memórias de tudo que me despejou encanto e agora soa frio e cru e esquecido. Um corpo sem afeto. Mentira. Teu corpo carrega cada resquício de amor meu. Inevitável ainda ter nos bolsos minhas palavras, meus bons sentimentos. Duvido que minhas falas não mais te prendem os pulsos, não te caiam dos bolsos.

Sua flor morre seis vezes mas ainda rego o caule despetalado.

Hoje a dor me atingiu num ardor desnorteante. Era aquele pequeno corpo cheio de uma vida que eu não faço ideia. Um corpo que assim como eu e você viveu um cem fim de histórias e almas e outros corpos. E, mesmo assim, mesmo sendo uma essência toda ali, eu só soube e só quis saber encontrar seus detalhes, seus efêmeros encantos que me destroçam o peito. Era o modo de prender o cabelo. Era o modo como você despejava seus pesados fios pelos ombros. Era o modo como você sequer notava que eu, nessa tolice humana afetuosa, decorei cada sombra, contorno. Decorei sua voz e seu tom, seus toques, dedos e cores. Decorei seus medos, mesmo os que sequer me confessou. Decorei seus silêncios, sua paz, seu filme preto e branco. Decorei as palavras ecoadas e as que sequer entoou. Decorei tudo que me confessou e seus pecados me eram histórias ternas.

Amei até o mais sórdido dos seus segredos, pois qualquer resquício de você me soava amor. Ainda me soa, caralho. Ainda me cantarola um tom dolorido do vazio agudo. Seus ecos são vagos. Seus timbres secos. Sua flor continua morrendo no chão da sala, mas me recuso a juntar as pétalas.

E te admito que me foi uma dor danada me dar conta, enfim, que não era nenhum outro ser ou corpo ou alma que me prendeu o olhar. Foi só, e tão somente, por te identificar. Por persistir te procurando em cada pedaço humano que me cruza o caminho. Como um espelho trincado que vai se quebrando em um sem fim de ranhuras, eu continuo me dilacerando em cada olhar que me cruza e não é o seu. Nunca o conforto da porra de seus olhos que não me olham mais.

Tatuo a tua flor morta em minha pele e alma para que ela, ainda que já sem perfume e pétalas, pare de morrer. Ou morra pra sempre. Você nunca mais prendeu o cabelo depois que despetalou.

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