escavo

A noite nos adormeceu mais cedo e ninguém veio apagar as luzes. O escuro é um espaço lotado de não saber e não estar e não poder lidar. Essa noite, pequena, eu não posso mais. Na verdade há noites que já não quero.

Meus cafés fortes já não saciam, e a ansiedade não queima junto com a brasa dos cigarros mal tragados. Estraga-me a alma estar esvaindo entre incertezas tolas e tracejos tortos. Não amei ninguém na última linha, logo eu que solitariamente amo tanto.

Minha alma tá debruçada, espalhada e dilacerada em sete pecados pela mesa. Cada poro meu respinga sangue de um corpo que sequer circula alma alguma. E você me pergunta se eu tô bem. Eu tô. Olha pra mim, porra. Eu tô bem pra caralho. Eu tô repetindo esses dias frios e vagos e sujos, eu tô caindo no abismo fúnebre de ser nada mais. Hoje o corpo cansou mais que a alma. Uma ferida exposta, expurgada e mal sentida. Muito, exaustiva e cruelmente, ressentida.

Há tempos esse coisa toda de essência já fenecera entre meus olhos chorosos. Você não viu, mas três lágrimas mancharam minha pele. Se houvesse ainda uma alma, qualquer pedaço, um dedilhar que seja, essa noite o corpo venceria a essência. Mas nenhum vazio me deixa espaço a ser ocupado. Morri trinta vezes desde que fechei os olhos. Morreria mais dez se houvesse espaço. Agora me resta ser um escavo de mim mesma. Nenhum respiro me dá ar. Ninguém vai acender as luzes.

Anúncios

4 comentários sobre “escavo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s