Nenhum amor é mais vermelho do que o inferno do abandono

Entre as horas longas de dias que pouco têm sido vividos, entre cafés amargos que já não me afastam o sono, entre a porra da constante ausência minha em mim. Entre tudo que me mata, restam-me linhas para escrever e, por deus, retomar um sujo traço do que sou.

Não quero te decepcionar, menina, mas não é sobre amor que tracejo nessas vagas linhas. É sobre todo o resto. Todo o resto que toca, dilacera, fere e decompõe os seres amantes. Teu corpo pequeno deitado por cima da brasa ardente. E tua pele branca queima em feridas de afeto. Teus olhos esguios e a música ardilosa que entoa seis infernos de silêncio. Nada preenche a sala depois que o amor morre.

Guardado entre as carteiras de cigarro, entre seus filtros sujos de batom, fenecendo entre as tragadas de desencanto. O amor é o mais roto dos sentimentos. E eu me sento à quatro corpos de distância, te vejo em cenas curtas, cruas. Quase te toco. Mas te deixo partir e me partir. Nenhum amor é mais vermelho do que o inferno do abandono.

Sua ausência se desenha no ar junto com a fumaça dos meus cigarros. Tua boca. Teu corpo. Nenhuma alma. Nenhuma carta. Nossos poetas sucumbiram antes da última linha. Meus heróis morreram a caminho da salvação. Mancharam minha camisa. Mas tudo bem. Sou um velho sem sapatos amando um corpo sórdido e imaculável. Sou só um velho sujo sentado na beira do abismo de si mesmo.

Menina, seus cigarros queimaram a terça parte de minha aura. Nenhuma bebida alivia a dor de ser e, porra, eu sequer sou. Mas dói. Dói pra cacete estar nessa casa escura e quieta e fria. Choro não pelo ardor que destroça meu desprezível ser, e sim porque os deuses, o universo, a poeira cósmica ou seja lá o que exista além de nós, desperdiçou tanta energia em alguém que não sabe sentir. Porra, minha dores consumíveis, toda a beleza artística que vi, os bons livros, a comida, a música, as mulheres que toquei, comi e cuspi, e os homens também, toda a tentativa de me achar e saber ser, estar e pertencer. Toda a merda de uma vida, e não soube te amar. Mesmo com seus cigarros manchados de batom vermelho, mesmo com teu toque doce, teu corpo fácil, tua alma desnuda. É minha falência espiritual, pequena.

Sou só um corpo decomposto vagando por entre um sem fim de corpos tão mais vívidos, mais hábeis, mais amantes. Qualquer um deles hei de te amar melhor que eu. Sou só um velho sem sapatos esperando a agonia me derrubar do precipício.

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a solidão cobre a mim e ao teu lugar na cama

Não tranquei a porta. Esqueci as luzes acesas. Deixei as cortinas abertas. Passei quatro vezes em frente ao seu portão só para que, quem sabe, por uma sorte danada, você fosse fechar as cortinas e me percebesse. Passei dias saltitando em seus meio caminhos, em suas possíveis rotinas. Vai que por sorte ou descuido do destino fosse você caminhando logo ali na minha frente, com seus risos fáceis e… e o que? Não era. Nunca foi você vagando entre as ruas, nem escorada nas janelas semi abertas. Não foi você que me viu passar e voltar e insistir na porra de um caminho que sequer era meu, só pela insensatez de que talvez tu me quisesse tilintando por entre as ruas tuas. E tão somente tuas.

Mas suas janelas eram sempre brechas de vazio. Sempre um espaço vago que nunca me entregou suas estadias, nem me foi convite pra fazer moradia. Talvez eu não tenha sabido desenhar caminhos. Tudo bem, menina. Às vezes as direções que nos encantam são os caminhos opostos aos nossos. Mas, por deus, eu enfeitei minhas janelas com a cor dos meus ensejos por ti. Logo eu, que nunca vi flores, bordei um sem fim delas em minhas cortinas, pintei paredes, tatuei a alma com pétalas e teu nome. Logo eu, que mal abria minha vidraça, escancarei a casa toda pra que você viesse. Te adotei em corpo, alma e pecados. Olhos redondos e nenhuma poesia que me deste.

Te dei a cama, o corpo e o cerne. Te fiz estadia, aconchego, te fiz convite. Tola, achei que tinha vindo pra ficar. Você, menina, passou num vento forte pela casa e, como num sopro gelado, esfriou os cômodos, apagou as velas, bagunçou os cadernos. Você, sorrateira, me fez crer num estar em mim. E não esteve. Porra, nunca teve sequer a pretensão de ficar. Agora as janelas estão decoradas com flores mortas e caules murchos. Agora a solidão cobre a mim e ao teu lugar na cama, despetala cada tenro afeto que te tive. Agora a solidão rasga os mapas, me perde nas ruas, me erra os caminhos. Sua janela me parece um vidro sujo agora, um riso sujo.

Era pra ser um auto retrato

Tentei falar sobre mim. Digo, olhar para mim, me ver, me sentir. Há tempo não ando me pertencendo. Fui escrevendo tanto sobre ti, decorei seus olhos, a espessura dos fios do teu cabelo, o timbre da tua voz, os seis modos que tu ri. Fui sendo tão você, tão tuas roupas, tão teus perfumes, fui sendo absolutamente cada gesto que admiro, que esqueci de me ser.

Não, minha menina, não é culpa tua. Eu vou me consumindo dos meus afetos. Incorporo-os, adentro-os, me visto, como e me transformo num pedaço do que amo. Amo tanto que me esqueço. E, logo eu, que nunca soube ao certo me adentrar, me possuir, me gostar, abandono de vez esse meu corpo insípido, enfadonho, e mergulho de vez num outro alguém.

Mas – veja que mazela audaciosa -, a vida me dá um corpo todinho meu para viver e eu, nessa repugnância de mim, me apego aos corpos alheios que, certamente, hei de me largar numa quebra de rua qualquer.

Me olhei no espelho e meu corpo já não me reconhecera a alma. Ou a alma já não pertence há tempos a este corpo. Meu cabelo cresceu, minha pele branca estampa olheiras que, por deus, denunciam um âmago que chora. Chorei. Porra, venho chorado por dias sem fim, pois a vida tem me pesado os ombros, curvado as costas, a vida tem alimentado uma dor que arde, escorre, se debruça em mim, mas não cessa.

Deveria escrever mais sobre esse meu eu. Sobre meus cigarro queimando os dedos. Sobre os cafés que tenho bebido. Sobre as cervejas não mais geladas às 3 da manhã. Mas acabo por escrever dos cinzeiros que tu não enche mais, das xícaras que esquecera sob a mesa, das bebidas amargas e doces e fortes que ficaram na promessa de serem partilhadas. Esqueceu-me entre seus bolsos. Me perdi entre as promessas do teu não amor. Mentira. Deixei-me perder antes mesmo de saber se tu me prometeria alguma coisa.

Me olhei no espelho e não me vi. Mas já não te vejo em meus entornos. Era pra ser um auto retrato. Não deu.

Notas de escárnio

Era como ouvir seus passos entre os quartos do andar de cima sabendo que havia ninguém na casa. Era como preparar dois cafés amargos, duas bebidas fortes e dispor dois cigarros no cinzeiro sabendo que apenas meu corpo ansiava por eles. Era como quando me sentava no sofá velho e desconfortável esperando você entrar ou telefonar, sabendo que nenhuma alma tua, nenhum vestígio voltaria.

Antes de você meus banhos eram calmos, meus cigarros queimavam com a liberdade de quem há de matar aos tragos. Antes de você as ruas eram limpas, a solidão era amiga, minha alma flanava num plano calmo. Vazio, mas calmo.

Sua presença me sujou os olhos. Me doeu o peito. Me dilacerou o mais inescrupuloso ato de sentir. Eu que compartilhei cigarros e bebidas, me sentei à banheira contigo, me escorei no teu peito nu pela ânsia de, quem sabe, me escorar em tua alma, agora me afundo numa água quente demais pro corpo meu. Fumo cigarros, engulo vinhos secos e esqueço os cafés esfriando na mesa. Agora meu silêncio quebra a casa. Preenche as lacunas de vazio. Sim, o vazio é uma massa densa que ocupa corpos e casas abandonados. Seu não me querer matou os espaços, comeu meu amor, apagou meu cigarro. Seu não me querer tropeçou diante seus olhos e você largou da minha mão. Meu desespero foi emergente. Logo eu que jamais divido cigarros e bebidas amargas, te dei minhas carteiras, meus copos e deixei você tragar minha alma toda. Eu que enchi a banheira, te molhei, lambi e sequei após seus banhos vagos, te vi abandonar mudo e sem amor os cinzeiros sujos de meu cerne. Você deixou somente um vestígio, um traço roto e sórdido em mim. Deixou as lembranças e as bebidas ruins. Saiu buscar cigarro e me esqueceu com o meu último queimando os dedos, a alma. Queimei de dor, de ardor, de agonia. Queimei antes de saber o ao certo o gosto teu. Te dei meu corpo e alma pra comer, você não avisou que partiria antes do café esfriar.

Depois de seus cabelos claros

Você me contava histórias boas, e eu muda em minhas falas. Você, um sem fim de vidas, e eu tão presa em meus abismos. Você tinha um relógio cheio de horas que tiquetaqueava em ritmos de vida. Eu tinha lembranças quase inaudíveis.

Você me foi tão ensejo. Engano meu. Achei que tinha sido desejo, fulgor, acalanto. Foi uma sucessão de erros e meus silêncios ficaram ainda mais pesados. Te amei como quem ama uma melodia intocável, um cor vibrante. Te amei em temores de te encostar e você se desfazer diante de mim. Por isso foi vislumbre. Foi admiração por quem eu, tola e sorrateira, moldurei, bordei e mantive em ilusões. Te coloquei em redomas de vidro para que ninguém quebrasse a doce visão que fiz de ti. Nem eu mesma. Por mais que tudo em mim berrasse que eu construí você, anulei seus pecados e exaltei cada piscar de olhos calmos. Por deus, mais do que isso, eu iludida me adentrei em seus bolsos e me prendi em seus pulsos. Aceitei seus silêncios e suas ruas vazias. Aceitei e quis amar cada palavra rota sua. Quis amar você em seus dias longos e na sua distância de mim. Quis amar e me apeguei à porra desse amor como quem precisa sobreviver. Amei você para que, mesmo em suas palavras vagas e falhas e tortas, quem sabe, eu me achasse. Me amasse um tanto.

Eu criei um você inteiro, um alguém que estava e queria estar e, por deus, eu criei o amor em seis tons de seus cabelos claros. Mas seus bolsos me afundaram, você me deixou cair e sequer fez questão de me olhar. Te amei numa agonia de quem precisa amar. Entre seus atos falhos e toques secos, entre o seu não estar e desumanamente me alimentar de esperanças, morri asfixiada. Decidi que é preciso deixar essa faca cega do seu não afeto afundar de vez em meu peito, fazer sangrar, fazer sentir. Preciso, por fim, quebrar a redoma onde criei um você que eu alimentei de bem querer, mas que é só, e tão somente, uma extensão dos meus abismos, de um desejo que só eu vibrei.

Eu te amei em admiração, encanto, ensejo. Te amei mesmo quando tudo em você foi ruído. Quando sua redoma quebrou, eu ainda amei. Quando quem eu criei desmoronou, tudo em mim estilhaçou junto. Agora sua imagem ainda me soa tão familiar, me escancara o peito, faz doer um amor que não sei ao certo se eu vivi. Mas o amor é sempre um afeto sujo. Sua faca cega ainda me sangra, arde, mas não há mais cor em seus cabelos. Morri depois disso também.

É preciso entrar em casa quando o amor não enfeita mais a rua

Me sentei na mesa e as folhas manchadas de café ou vinho barato me engoliram. O vazio tão mais oco e um eco tão mais seco . Nenhuma palavra emergiu de mim, nenhuma caligrafia sujou os papéis meio amassados. Eu queria te escrever qualquer coisa, uma coisa que desafogasse meu peito, mas os ponteiros do relógio denunciavam que eu já estava há tempo demais insistindo em letras vazias e num corpo que não me ocupa mais. Se é que um dia me ocupara.

Tentei escrever e nada saiu. Talvez não haja mesmo mais o que dizer. Talvez o que restou foi o vazio incômodo, algumas peças de memória em mim, umas blusas esquecidas no canto do guarda roupas. Mas talvez não haja mais palavra a ser dita. Por deus, não é sequer vazio em mim que lateja no peito. É, quem sabe, o que restou da vontade de te berrar desejo.

No início, joguei suas fotos pela janela só para você se ver no chão de meu peito. Para que, assim, você pudesse reconhecer que te dei as chaves de casa, te trouxe em pequenas mudanças, te instalei no quarto, na cama, no corpo. Te abracei, engoli, aqueci com o calor que só o afeto há de causar. Joguei então as fotos pela janela para que você, imerso na sua capacidade de não me precisar, percebesse que eu te precisava, te queria, te comia em pedaços de amor frio. Mas é preciso entrar em casa quando o amor não enfeita mais a rua. O seu há tempos não enfeitara.

Por tantos dias suas fotos murcharam e mataram as belas linhas do teu sorriso. Da janela do quarto, passei quatro noites debruçada no decompor fotográfico. Sua imagem era só um borrão, uma sujeira que me escorreu pelo peito. Você não viu suas fotos no chão. Ou se viu, pouco se importou. O seu não me querer e não me precisar e, ainda assim, saber me ter em corpo, alma e vísceras se debruçou comigo na janela. Vimos todos os seus traços morrerem no papel velho. Sem alma, sem vil, sem o telefone soando seco numa manhã de sábado, sem a porra dos dias calmos e amores sórdidos, sem amor. Sem amor. Seu corpo fotografado escorregou entre a folha e a grama. Frio, sujo, roto, tolo. Você não viu meu amor escorrer entre seu riso de escárnio.

E agora que eu queria te dizer tanta coisa, nada há. O amor morreu lavado e levado pelo descaso seu. Não me restou amor, nem lembrança de seus olhos pueris. Sobrou só, e tão somente, a porra da memória. Um sentir que tu já habitara a casa, e que tudo que restou foram suas fotos sem corpo, sem alma, sem aura.

Derramei amor na mesa

Seu afeto é um ruído quase mudo no rádio velho. Uma imagem borrada na televisão preta e branca. Seu afeto é uma flor despetalando-se de bem-me-quer. Todo amor insurge e inflama e revoga e vocifera desejo e querer estar e ser e pertencer. Todo amor é uma linha luminosa tracejando entre os dedos e pulsos e impulsos. Todos os amores são, menos os viáveis, os amáveis, os que vivem em casas de tetos concretos. Nenhum amor realizável se sustenta, pequena.

Pois nesse meu querer beirando o saber que jamais terei, amo. Infindável e inexoravelmente. Amo em seis timbres mudos. Amo feito um copo quebrado que derrama vinho à mesa. Amo pela certeza de não possuir e não ter e não tocar. Amo pois os dedos não sentem, e o perfume não se esgota, as almas não se cruzam. Amo exatamente por não amar. Mentira. É amor! Porra, o mais saturno amor, que não se esgota por não haver defeito em ti. Amor que não desgasta pela ausência de defeitos, e de corpo, e de alma. Amo porque há entre mim e meu afeto um universo, um abismo intransponível. Um amor platônico alicerçado no não tocar e não sentir, e então construir um novo você. Alguém que não existe no mundo real, mas, pequena, te amo. Ainda que sem o ato de amar.

Amo porque não posso escorar minha alma na tua. Amo porque você está do outro lado de um espelho que só, e tão somente, eu vejo o reflexo. Amo porque teu cheiro não me cansa, pois minhas memórias são mais doces do que o doce real dos olhos teus. Mas, ainda assim, teus olhos amenos me parecem sorrateiros e sagazes. Sórdidos. Seus pecados me encantam pois não me ferem. Seus ensejos são vislumbres doces. Você me é um afeto todo digno de amor e noites em claro porque seu vinho derramado não mancha minhas toalhas, seu timbre não entoa nenhuma palavra dura, seus olhos não me reprovam. Todo o seu corpo me é timbre, melodia e um salão onde posso dançar. Você é um sopro gelado no meu peito, quase um susto doce, exatamente por não ser nada próximo a mim. Quase ser, quase estar. Um quase amor.

Um cerne, um caco, um ego, um afago

Decidiu que era hora de parar de escrever. Sim, pois sentava-se em seus lamentos e preenchia cartas sem fim para mil conhecidos. Decidiu que era a última vez que tomava uma caneta em suas mãos e que, caprichosamente, desenhava caligrafias em suas folhas. E num misto de despedida e necessidade de explicar, contornou seus dedos com a caneta. Regeu uma sinfonia de sentimentos escritos. Pela última vez se encheu da necessidade de esvaziar-se, então escreveu.

E pra quem destina-se sua última e mais tênue e avassaladora escrita? Suas linhas retas de sentimentos tortos vão aos olhos de quem? – E minhas personagens que me são tão vivas, e eu que me tomo em escritas, vagueio em frases semi-mortas, socorro-me em angústias que borram, sim!, borram o papel. Pra quem escrevo? – Num misto de dúvida e certeza, escreveu. Ainda que, a princípio, sem destino certo, sabia em seu âmago quem deveria ler.

Ah, suas linhas pesadas encheram-se, e dessa vez não tinha personagem. Amigos velhos, os bons ouvintes, as mágoas, os amores arremessados no mar do coração, a família, os doentes, os podres, pobres, fracos, corajosos, os inimigos, os famintos de amor, os solitários, os mudos cegos e adormecidos, os alegres, os hipocondríacos, desesperados e alucinados, os loucos neuróticos, esquizofrênicos e os de bom coração. Dezenas deles. É pra eles que sempre destinavam-se suas cartas. E agora é pra todos. Todos que sempre foram ele. Ao amigo sufocado pelo amor desamado, pois o coração de quem escreve está sendo destroçado pelo sofrer palpitante da paixão. À mãe estrondosa que afoga suas necessidades na agressão, pois os dedos de quem escreve estão marcados pela caneta apertada, pelo metal contra a fina pele, que faz sangrar. Ao filho desatento, amargurado, inexpressivo, pois quem escreve quer desapegar-se de um afeto sórdido, um quase desafeto, pois o fere, o clama, o protege até a segurança romper-lhe o peito e roubar-lhe o ar.

A todos os conhecidos, seus personagens. Às características das invenções, toda sua angústia. À criação fictícia, todo seu lamento. Nada é falso, mas nada é real. A todos os destinatários, um pedaço do autor e da autoria. Um cerne, um caco, um ego, um afago: uma renúncia de si, uma denúncia do ser. A última carta dependurada no espelho: se suas mãos ainda puderem escrever amanhã, ele a lerá como um velho conhecido de si mesmo. Se nada mais acordar, ele terá a carta refletindo tudo que ele foi: um drama ficcional.

bem-me-quer do seu não mais querer

Finas linhas tecendo um manto grosso de afeto. Não há nenhum ponto cego em meus bordados, e cada camada de minha derme exala seu perfume. Meus afetos são exaustivamente sentidos. E já cedo te peço perdão. Antes de amanhecer os timbres irão soar roucos, e talvez suas estadias sejam curtas e efêmeras.

Mas te entrego uma flor e, por deus, leva essa minha blusa branca que fica tão mais branca em ti. Te veste como o corpo meu há de contornar. Te recobre delicada, como o meu sentimento jamais há de ser. Qualquer afeto em mim é árduo, pesado, sentido até o último piscar de olhos.

E as flores hão de morrer. Pétala por pétala, restando um caule desalmado, derrubando o bem-me-quer do seu não mais querer. Essa é a crua e fria rota natural. Ficarei entre seus jardins e perfumes, plantando rosas e me furando com os espinhos teus. Mas hei de amar, dia após dia, cada vez mais, sórdida e inebriantemente mais. Em cada movimento lento dos ponteiros da saudade, meu amor venda meus olhos, preenche meu eu. Meu amor te contorna num sem fim de te querer. E você, pouco a pouco, se desata de meus dedos e alma. Meu eu vaga pela casa e ocupa o vazio da tua cama. Teu corpo fora presença e, nos dias mudos e frios, seu amor baixará um tom. Uma pétala a menos. Um respingo de melodia. Ninguém notou o jardim morto do lado de fora. Tudo bem, uma hora você esqueceria de regar as flores.

Te entrego os vasos e os caules todos. Meu chão coberto pelo que me era amor. Nossa rosa derrubada no chão frio do seu sentimento. Debruçada no chão frio da sua indiferença. As flores morreram no bolso branco de minha blusa que sequer te veste, te serve, te tece.

Por querer

Tentei te dizer alguma coisa que soasse amena, dócil. Nada saiu. Nada rendeu em linhas tortas. Meu eu se desfez no último parágrafo. Meu eu morreu asfixiado na esfinge tétrica do teu ser. Seu sorriso ainda é um ato que me consome. Tu nunca me sorriu.

Morri em tuas fotos frias. Teus toque cegos. Teus atos mudos. Você, vaga e sorrateira, roubou meu peito inteiro e esqueceu de me levar. Você, menina de ensejos efêmeros, passou correndo e esqueceu de me dizer que sua vida durava seis segundos. Morreu pra mim, mas não em mim.Te guardei em minha memórias, encantos, palavra. Morri. Morri uma centena de vezes. Morri e ainda volto pra beber teu vinho morno. Morri porque suas palavras ecoam no sétimo timbre da minha mente. Ninguém te reverberou senão eu mesma.

Tentei escrever, berrar, exteriorizar. Morri muda e dilacerada no meu bem te querer. Sem querer.