Você deixou as bebidas e os cigarros queimando no cinzeiro. Minha alma incendiou.

A porta ficou aberta, mas você se esvaiu como um vento forte. Saiu derrubando os enfeites da mesa e metade do meu peito. Você se foi preso ao silêncio, aos bolsos e pulsos quietos. E ainda que todo o você tenha partido, seu rastro mudo me berra a certeza de que não vai lembrar do caminho.

A primeira vez que você foi embora, eu quis berrar na altura em que meu peito se estilhaçou. Eu procurei seu rosto em cada corpo vagando entre as ruas. Eu procurei esquinas e mapas e endereços aleatórios apenas pra arriscar tropeçar em você. Eu me destrocei em centenas de injuntáveis e incoláveis pedaços. E ainda há de ter alguns espalhados pelo chão da sala. Na primeira partida sua, meu eu inteiro se partiu. Morri três vezes entre cada expiração. Vi seu corpo longe e a certeza do fim berrava à minha frente, rente ao rosto meu. Tampei os olhos com um pano incendiável.

Depois seus quase retornos me reavivaram e, por fim, me causaram uma morte ainda mais densa. Se é que se pode morrer mais vertiginosamente, eu morri de todas as tragédias desamadas. Mas a cada morte minha, os destroços do meus afetos por ti se partiam menos. Ou já não tinham mais o que partir. Na terceira vez em que você foi embora, eu me sentei no sofá duro e desconfortável esperando você ligar. Nenhum toque. Tirei o telefone do gancho só pra verificar se funcionava ainda. Você não ligou.

Na quinta vez que foi embora, fumei três carteiras de um cigarro ruim. Os que eram seus já tinham acabado antes de você passar a porta. Eram minhas essas essas carteiras, mas nesse processo de estar em alguém, eu me abandono a ponto de ser tudo e somente o que a pessoa há de gostar. Fumei minhas esperanças também. Nenhum cigarro me queimou o dedo, mas a vontade de te pedir pra ficar me queimou a alma. Não pedi. Não há em mim nenhum direito de romper o silêncio, de pedir estadia, de exigir uma presença que não quer, e se quer, não demonstra querer ficar. Divido cafés e cigarros, a cama, a alma, o corpo, me enlaço na paz do teu corpo como uma confissão vaga de que te quero e te preciso e morro em suas ausências. Mas, ainda que fenecendo, não te peço retorno. Meu eu morre enclausurado na necessidade de te dizer pra ficar. Acendo mais três cigarros pra queimar a dor.

Na sexta vez, a porta ficou escancarada e meus papeis voaram ao chão. Te entreguei mil poemas sobre a paz que seu amor me dá, mas você não leu nenhum. Você nunca me lê. Mas, se por acaso os leu, nem notou que entre as linhas eu descobri que a paz que tenho é pelo ato de amar. E não por ti. Suas portas abertas bagunçaram também meus sentimentos. Acabou a linha e eu descobri que nossa casa tinha muito mais eu do que nós. E a parte tua que ainda habitava aqui era composta só da sua falsa estadia, e minhas vagas memórias tuas.

Agora, nessa última vez, meu peito ainda sangra ardido e despende de um buraco vago e cru e. Minhas feridas sangram e me afogo em saber que tu não volta. Você deixou as bebidas e os cigarros queimando no cinzeiro. Minha alma incendiou.

Mas me sento na beirada da porta e te vejo partir, ainda que sucumbindo, numa vontade consciente de que, dessa vez, não volte. Mesmo que meus tons de afeto te queiram em corpo, alma e vísceras, desejo que suas esquinas se percam em um sem fim de ruas. Eu me sento e espero você partir. Porque o amor é um ato ferido. Você não costurou suas estadias aqui e me findou num buraco vazio de me amar.

No início, me sentei com minhas bebidas amargas e seus cigarros esquecidos e esperei você partir. Num fluxo de vida já banal e inviolável. As pessoas me partem e não há nenhuma variável nisso. Nunca eu que parto. Continuo ficando, sempre. Ainda que sufocada no estar, presa na infelicidade de ser e não ter e não querer estar, nunca eu que digo adeus, escancaro as portas, assumo as ausências.

Mas por fim desejo que não volte. Teu não saber amar e não saber estar me causam a ojeriza misturada ao precisar de ti. Já que não sei partir, me resta desejar que as idas alheias sejam em boas horas. Não é mais amor. Acho que há tempo não tem sido afeto, bem querer. Necessidade talvez. A presença rotineira de teu caos em mim. O afeto não pode ser algo tão parecido com um abismo de rejeição, e o choro frequente me garante que que sua partida hei de ser o melhor. Aonde quer que vá, saiba que estou te emanando coisas boas. Que tenha paz, amor, sentimentos leves. Só quero que leve contigo tudo o que restou aqui: o peso da sua ausência física e afetiva, e os excessos de um amor que só eu amei.

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