A alma voltou a ser esse espaço vago e frio e cru e

Me olhei no espelho só pela certeza de que eu ainda era exatamente o que rejeito. Esse corpo mudo e nulo. Essa alma morta e fatigada. Essa essência que me arde o existir só, e tão somente, por não haver nenhum tipo de existência em mim.

Os dias têm sido pesados, pequena. Doídos. Me prendendo cada vez mais abaixo de mim mesma. Os período duros voltaram. A alma voltou a ser esse espaço vago e frio e cru e.

Eu sei, e me repito incansáveis vezes, que o dias não são leves sempre, e de algum modo humano e cruel sempre há pedaços ardendo em brasa em nós. Sempre há um espaço reservado à melancolia ou uma nostalgia que, por vezes, beira ao insuportável. Mas só eu sei o quanto tenho resistido em meus abismos. O quão árduo e sórdido e fodido tem sido me manter intacta aqui dentro. Porra, nenhum deus cósmico, místico, nenhuma santidade olhou por mim nos últimos anos. Não, pequena. Não estou exagerando as mazelas da vida. Hoje, depois de tempos, um buraco fundo demais me consumiu, me comeu, não restou espaço em mim pra pedir socorro. Ultrapassei a fissura da morte quando meus demônios me abriram os olhos. Dormir também não me traz mais paz.

Me sentei na beirada da cama e da ponta dos meus cabelos pingaram gotas de desolação. Aqueles pequenos ensejos que nos mantém vivendo e lutando e persistindo nessa porra toda já não são o bastante. Sequer ainda são, menina. Dos meus poros exalam a ojeriza de um viver sem muita pulsação.

Mas meu reflexo ainda tem a cara que eu não queria ver. Nenhum espelho me salva da certeza de não estar mais aqui. Você me vê? Vê? Além desse corpo vago. Vácuo. Você me vê além do choro e das lágrimas e do peso de ser uma alma mais morta do que um corpo decomposto pode ser? Pois, menina minha, se tu puderes me ver um pouco além do que me vejo, me valerá ter estado aqui. Mas agora os dias além da janela parecem ser tão iluminados e com brisas amenas, e eu mal alcanço as janelas. Eu sou um caos emaranhado na incerteza de estar e merecer estar aqui. Uma alma pesada demais pra se carregar. Meus pecados exalados, um corpo fatigado pela necessidade de estar em qualquer lugar que haja vida. E nenhuma vida há em mim.

Mentira. Resquícios de uma vida sórdida, rota. Meu choro ardido agora está preso entre a garganta a alma. E minhas poças de dor acumulados debaixo de minhas pernas não lavam minha essência. Nenhum amor, poema ou ilusão fodida me salvou hoje. Ninguém veio me buscar. Tudo bem. O relógio deu três voltas e eu acho que por hoje me salvei de mim. O corpo resistiu à alma. De novo. Meus pequenos fantasmas agora se debruçam na beirada da cama. Se estendem ao meu lado. Meus sujos demônios me cobrem de vestes esfarrapadas. Ninguém acendeu as luzes também. Ou eu estou olhando pra dentro. Pro fundo. Deveria mesmo era retirar os espelhos do quarto.

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