bem-me-quer do seu não mais querer

Finas linhas tecendo um manto grosso de afeto. Não há nenhum ponto cego em meus bordados, e cada camada de minha derme exala seu perfume. Meus afetos são exaustivamente sentidos. E já cedo te peço perdão. Antes de amanhecer os timbres irão soar roucos, e talvez suas estadias sejam curtas e efêmeras.

Mas te entrego uma flor e, por deus, leva essa minha blusa branca que fica tão mais branca em ti. Te veste como o corpo meu há de contornar. Te recobre delicada, como o meu sentimento jamais há de ser. Qualquer afeto em mim é árduo, pesado, sentido até o último piscar de olhos.

E as flores hão de morrer. Pétala por pétala, restando um caule desalmado, derrubando o bem-me-quer do seu não mais querer. Essa é a crua e fria rota natural. Ficarei entre seus jardins e perfumes, plantando rosas e me furando com os espinhos teus. Mas hei de amar, dia após dia, cada vez mais, sórdida e inebriantemente mais. Em cada movimento lento dos ponteiros da saudade, meu amor venda meus olhos, preenche meu eu. Meu amor te contorna num sem fim de te querer. E você, pouco a pouco, se desata de meus dedos e alma. Meu eu vaga pela casa e ocupa o vazio da tua cama. Teu corpo fora presença e, nos dias mudos e frios, seu amor baixará um tom. Uma pétala a menos. Um respingo de melodia. Ninguém notou o jardim morto do lado de fora. Tudo bem, uma hora você esqueceria de regar as flores.

Te entrego os vasos e os caules todos. Meu chão coberto pelo que me era amor. Nossa rosa derrubada no chão frio do seu sentimento. Debruçada no chão frio da sua indiferença. As flores morreram no bolso branco de minha blusa que sequer te veste, te serve, te tece.

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