É preciso entrar em casa quando o amor não enfeita mais a rua

Me sentei na mesa e as folhas manchadas de café ou vinho barato me engoliram. O vazio tão mais oco e um eco tão mais seco . Nenhuma palavra emergiu de mim, nenhuma caligrafia sujou os papéis meio amassados. Eu queria te escrever qualquer coisa, uma coisa que desafogasse meu peito, mas os ponteiros do relógio denunciavam que eu já estava há tempo demais insistindo em letras vazias e num corpo que não me ocupa mais. Se é que um dia me ocupara.

Tentei escrever e nada saiu. Talvez não haja mesmo mais o que dizer. Talvez o que restou foi o vazio incômodo, algumas peças de memória em mim, umas blusas esquecidas no canto do guarda roupas. Mas talvez não haja mais palavra a ser dita. Por deus, não é sequer vazio em mim que lateja no peito. É, quem sabe, o que restou da vontade de te berrar desejo.

No início, joguei suas fotos pela janela só para você se ver no chão de meu peito. Para que, assim, você pudesse reconhecer que te dei as chaves de casa, te trouxe em pequenas mudanças, te instalei no quarto, na cama, no corpo. Te abracei, engoli, aqueci com o calor que só o afeto há de causar. Joguei então as fotos pela janela para que você, imerso na sua capacidade de não me precisar, percebesse que eu te precisava, te queria, te comia em pedaços de amor frio. Mas é preciso entrar em casa quando o amor não enfeita mais a rua. O seu há tempos não enfeitara.

Por tantos dias suas fotos murcharam e mataram as belas linhas do teu sorriso. Da janela do quarto, passei quatro noites debruçada no decompor fotográfico. Sua imagem era só um borrão, uma sujeira que me escorreu pelo peito. Você não viu suas fotos no chão. Ou se viu, pouco se importou. O seu não me querer e não me precisar e, ainda assim, saber me ter em corpo, alma e vísceras se debruçou comigo na janela. Vimos todos os seus traços morrerem no papel velho. Sem alma, sem vil, sem o telefone soando seco numa manhã de sábado, sem a porra dos dias calmos e amores sórdidos, sem amor. Sem amor. Seu corpo fotografado escorregou entre a folha e a grama. Frio, sujo, roto, tolo. Você não viu meu amor escorrer entre seu riso de escárnio.

E agora que eu queria te dizer tanta coisa, nada há. O amor morreu lavado e levado pelo descaso seu. Não me restou amor, nem lembrança de seus olhos pueris. Sobrou só, e tão somente, a porra da memória. Um sentir que tu já habitara a casa, e que tudo que restou foram suas fotos sem corpo, sem alma, sem aura.

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