Depois de seus cabelos claros

Você me contava histórias boas, e eu muda em minhas falas. Você, um sem fim de vidas, e eu tão presa em meus abismos. Você tinha um relógio cheio de horas que tiquetaqueava em ritmos de vida. Eu tinha lembranças quase inaudíveis.

Você me foi tão ensejo. Engano meu. Achei que tinha sido desejo, fulgor, acalanto. Foi uma sucessão de erros e meus silêncios ficaram ainda mais pesados. Te amei como quem ama uma melodia intocável, um cor vibrante. Te amei em temores de te encostar e você se desfazer diante de mim. Por isso foi vislumbre. Foi admiração por quem eu, tola e sorrateira, moldurei, bordei e mantive em ilusões. Te coloquei em redomas de vidro para que ninguém quebrasse a doce visão que fiz de ti. Nem eu mesma. Por mais que tudo em mim berrasse que eu construí você, anulei seus pecados e exaltei cada piscar de olhos calmos. Por deus, mais do que isso, eu iludida me adentrei em seus bolsos e me prendi em seus pulsos. Aceitei seus silêncios e suas ruas vazias. Aceitei e quis amar cada palavra rota sua. Quis amar você em seus dias longos e na sua distância de mim. Quis amar e me apeguei à porra desse amor como quem precisa sobreviver. Amei você para que, mesmo em suas palavras vagas e falhas e tortas, quem sabe, eu me achasse. Me amasse um tanto.

Eu criei um você inteiro, um alguém que estava e queria estar e, por deus, eu criei o amor em seis tons de seus cabelos claros. Mas seus bolsos me afundaram, você me deixou cair e sequer fez questão de me olhar. Te amei numa agonia de quem precisa amar. Entre seus atos falhos e toques secos, entre o seu não estar e desumanamente me alimentar de esperanças, morri asfixiada. Decidi que é preciso deixar essa faca cega do seu não afeto afundar de vez em meu peito, fazer sangrar, fazer sentir. Preciso, por fim, quebrar a redoma onde criei um você que eu alimentei de bem querer, mas que é só, e tão somente, uma extensão dos meus abismos, de um desejo que só eu vibrei.

Eu te amei em admiração, encanto, ensejo. Te amei mesmo quando tudo em você foi ruído. Quando sua redoma quebrou, eu ainda amei. Quando quem eu criei desmoronou, tudo em mim estilhaçou junto. Agora sua imagem ainda me soa tão familiar, me escancara o peito, faz doer um amor que não sei ao certo se eu vivi. Mas o amor é sempre um afeto sujo. Sua faca cega ainda me sangra, arde, mas não há mais cor em seus cabelos. Morri depois disso também.

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