Era pra ser um auto retrato

Tentei falar sobre mim. Digo, olhar para mim, me ver, me sentir. Há tempo não ando me pertencendo. Fui escrevendo tanto sobre ti, decorei seus olhos, a espessura dos fios do teu cabelo, o timbre da tua voz, os seis modos que tu ri. Fui sendo tão você, tão tuas roupas, tão teus perfumes, fui sendo absolutamente cada gesto que admiro, que esqueci de me ser.

Não, minha menina, não é culpa tua. Eu vou me consumindo dos meus afetos. Incorporo-os, adentro-os, me visto, como e me transformo num pedaço do que amo. Amo tanto que me esqueço. E, logo eu, que nunca soube ao certo me adentrar, me possuir, me gostar, abandono de vez esse meu corpo insípido, enfadonho, e mergulho de vez num outro alguém.

Mas – veja que mazela audaciosa -, a vida me dá um corpo todinho meu para viver e eu, nessa repugnância de mim, me apego aos corpos alheios que, certamente, hei de me largar numa quebra de rua qualquer.

Me olhei no espelho e meu corpo já não me reconhecera a alma. Ou a alma já não pertence há tempos a este corpo. Meu cabelo cresceu, minha pele branca estampa olheiras que, por deus, denunciam um âmago que chora. Chorei. Porra, venho chorado por dias sem fim, pois a vida tem me pesado os ombros, curvado as costas, a vida tem alimentado uma dor que arde, escorre, se debruça em mim, mas não cessa.

Deveria escrever mais sobre esse meu eu. Sobre meus cigarro queimando os dedos. Sobre os cafés que tenho bebido. Sobre as cervejas não mais geladas às 3 da manhã. Mas acabo por escrever dos cinzeiros que tu não enche mais, das xícaras que esquecera sob a mesa, das bebidas amargas e doces e fortes que ficaram na promessa de serem partilhadas. Esqueceu-me entre seus bolsos. Me perdi entre as promessas do teu não amor. Mentira. Deixei-me perder antes mesmo de saber se tu me prometeria alguma coisa.

Me olhei no espelho e não me vi. Mas já não te vejo em meus entornos. Era pra ser um auto retrato. Não deu.

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