acordei um hora mais tarde, cem dias depois

Passei dias amargos, menina. Uma angústia pesada e meu peito ardido. Uns dias cinzas, sem risos e sem vida. Quase não existi nesses últimos tempos. E ainda não me retomei.

São tempos difíceis de janelas abertas e uma tempestade incontrolável do lado de fora. Ou de dentro, já não tenho certeza. O desamparo costurou minhas mãos, a solidão me abraçou como um casaco grande demais pra mim. Fui dormir e acordei um hora mais tarde, cem dias depois. Nenhum relógio contou meu tempo.

Mas a dor da alma é um caos sem nexo. São quatro da manhã e meu corpo flana na cama. Pode ser efeito dos remédios ou do café em excesso que andei tomando. Tenho quase certeza que são os remédios. Já me senti assim, quase fora de mim – por deus, se ele me deixasse escapar de vez desse corpo. Mas ainda que tudo em mim sinta-se estranho, é por dentro que sentir me dilacera. São quatro da manhã e o mundo me abandonou. O teto parece longe demais e sinto meu corpo vagando no vazio. Talvez sejam os remédios, mas sinto um vazio ecoando em mim. Não como a solidão, não. Nunca liguei pra companhia, gente me irrita e sempre tentei me manter o mais afastada possível dessa humanidade. Sinto-me abandonada. Uma dor que me escorre pela pele. Pela primeira vez em anos eu me rendi à deus. São quatro da manhã e o mundo me largou na porta de uma casa estranha. Eu já me abandonei há tempos.

Quando o barulho do mundo se calou em mim, restou o vazio de alguém que já não se habita. Não tem mais nada. Deus não acredita mais em mim. Tudo bem, eu também não acredito em mim. Mas agora meu corpo sente-se inerte, ardendo num composto biológico e sentimental. São os remédios ou a loucura ou o café ou a consciência. Queria dormir, mas o sono não vem. Queria tocar o teto, mas me sinto estranhamente desatada de meu corpo. Queria viver, mas me perdi há tempos. Restou-me vestir o abandono do mundo. Pedi à deus pra não me acordar mais.

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cem dias de amor abandonado e uma ressaca sem fim

Todos os dias o vazio da sua rua ainda me esbarra nas esquinas. Ainda que você esteja vagando insólito por ai, o que restou de ti aqui, entre poemas e risos frouxos, foram saudades e meu peito apertado.

Mas não quero que embale essa carta com um ritmo triste e nefasto. Já passou. Aquele momento árduo e nostálgico se desfez há algumas quadras. Mantive meu rito de transcender a dor. À dor. Vivi cada segundo da ferida da sua ausência. Senti o espaço vago da falta do corpo teu. Morri de frio, de fome e de medo. Ocupei os vãos que tu me causou com cafés, cigarros e choros angustiados. Odiei a vida, as paredes pintadas, a porra da sua sua rua. Odiei você. Aquele ódio que recobre o desespero de querer esquecer.

Vaguei por ruas frias e imaginei mil motivos para não ter sido eu quem te cativara. Por deus, como somos cruéis e tolos e sórdidos. Abraçando motivos que justifiquem a nós mesmos porque não fomos doces, amáveis, adoráveis. Abraçamos a tristeza e fingimos crer que é a vida. É a porra da vida.

Passei sem querer na sua rua só para, quem sabe, esbarrar em ti. Vivi mais cem dias de amor abandonado e uma ressaca sem fim. Mas é a vida. Mesmo que fodida e crua e. Mesmo que persistindo nesse roteiro sujo, é a vida. Um ciclo sem justificativa do porquê nós não fomos dignos de causar amor.

Mas, por fim, te retomo. Não leia em tons doloridos. Eu vivi minha angústia cíclica. Hoje sua rua é apenas mais uma rua em meus mapas. Hoje seu rosto é apenas um despertar de algo que quase fora. Não chegou a, de fato, ser. Um meio riso, uma lembrança amena, um café que esfriou rápido. Hoje não há mais dor.

O amor acaba depois do terceiro degrau

Colecionando despedidas e falsas estadias. Pessoas vagando por ai, cheias de histórias e vidas e notas mal escritas, nenhuma interessante. Nenhuma porra de alma disposta a olhar mais fundo. Ou, tola de mim, todas vendo exatamente o sem fundo que sou, por isso nenhuma me esbarra.

Menina, poucas as confusões alheias me interessam. E, por deus, tenho me esforçado. Insisti em dois ou três amores inventados, mas meu desinteresse humano morre na velocidade de uma flor arrancada. Murchando e secando entre os dias mudos.

Ainda que eu sinta uma necessidade inexorável de ser ouvida e de olhos que me vejam mais do que eu mesma posso ver, esses pobres e raros compostos almáticos quase nunca me cruzam o caminho. E quando cruzam, duram um centésimo de segundos. Meu amor ascende e fenece na brasa de um cigarro manchado de batom.

Ainda que a risada alheia me relembre um tom de vida doce, tem alguma coisa em mim que morre em cada despertar de afeto. Preciso sentir amor, morrer de amor, preciso das condolências desse sentimento roto e sujo. Mas a presença alheia me aflige o âmago, me destrói, me desinteressa.

Idealizo o ser amável que vá me fazer tomar corpo de mim, que vá me situar de quem sou. Se é que ainda sou. Por isso meus amores são frívolas cadências, são ocupações de espaços e vagos momentos de minha vida. Os que, raros, me atiçam a alma, nunca me ensejam o corpo. E quem há de persistir no meu caos recluso, eu recubro num manto desinteressado. O amor acaba depois do terceiro degrau. A persistência mata o desejo no sétimo andar. A solidão de não sentir-se capaz de amor e amar te joga do terraço. Não tem nenhuma beleza, agonia romântica ou lucidez. O desinteresse queimou a escada e a única saída é se jogar no próprio abismo solitário.

Uma foto velha e a certeza que te conheço, mas não reconheço

taPassei alguns lassos minutos encarando seu rosto insigne na fotografia. Sequer me atrevo a dizer que admirei ou olhei. Encarar é um termo que condiz bem mais com o momento. Logo eu que já te admirei em tantos outros incontáveis momentos, agora te encaro num misto aflitivo e quase superado. Digo quase.

Você me lembra alguém, com seus dedos levemente tortos na foto. Com seus olhos redondos e vagantes. Com sua expressão de quem sabe exatamente quem é. Mas, por deus, você me lembra alguém que não você mesmo. Talvez, e agora sim me atrevo num ímpeto tempestuoso, você me lembre quem tu jamais fora. Quem eu criei e alimentei. Quem eu por dias sem fim acreditei que foste. Dono de olhos mais redondos do que de fato eram. Mentira, seus olhos são visceralmente redondos e afáveis. Pena que nunca me olharam de fato. Sempre de soslaio enfadonho, sempre um jogo sujo de entre dizer, mal dizer. Um jogo ameno de nunca chegar. Nunca de fato chegou, mas partiu e levou dois terços de meu peito embora.

Engraçado como agora, e tão somente agora, vejo que na foto há tanto mais além de ti. Eu que antes olhava e via apenas a imensidão de seu olhar oblíquo e meio sorriso, agora vejo tanta coisa, tanta gente, tanto mundo. Até diria que a foto cresceu, se estendeu ou que é outro retrato. Mas acho que foi você, junto às suas cores todas, que diminuiu. Pois veja, tu até ficou um tom a menos, quase monocromático.

Quase uma foto nova, ainda que velha. E seus dedos tortos que contrastam com as linhas retas do fundo da foto me fazem rir. Por deus, há poucos meses me fizeram lamúrias pela falta de toque seu, hoje me tecem um quase sorriso de graça. Eu que morri da ausência tua, hoje permito-me admitir que a dor se borda em um passado que começa a passar. Ainda que não por completo, ainda que seu rosto me lembre alguém que tu me eras e não foi mais. Ainda que eu tenha aquele ímpeto de que te conheço na foto, mas não mais te reconheço.

Seus olhos redondos e esguios me rememoram os toques e a ausência sua. O modo como alguém sai da sua vida, diz muito mais a respeito dela do que o modo como ela entrou. Você surgiu com seus dedos tortos e seu sorriso doce e eu bordei em ti esse retrato. Quando sua ida me destroçou o peito e quebrou os vidros, era essa maldita fotografia que eu ainda via. Meus olhos cegos e tolos demoraram pra desbotar os adjetivos que eu teci em ti.

Mas agora eu vejo mais longe esse você que, senão passado, haverá de passar. Com seus dedos ainda tortos e seus olhos arredondados, percebo uma foto toda e você um tanto mais exíguo, quase sem cor, quase sem dor.

Atirei o corpo e o resto todo pela janela. Não havia muito mesmo. Mais medo do que alma, mais desencontro do que qualquer esboço de caminho. Atirei pela janela um sem fim de tracejos de vida e um inexorável medo de vivê-la.

Tenho estado à beira de mim mesma a tanto tempo que sequer vejo o que me cerca. Não faço mais ideia das correntes que me seguram aqui. Não olhei as amarras que marcaram a pele. Não olhei se cai sozinha ou meus abismos todos vieram junto. Me atirei da janela pra tentar me tirar de mim, mas nenhuma poesia falou sobre os abismo livrarem os corpos dos suplícios de ser exatamente o que se é. E tão somente caberá a mim me ser e saber ser. Se é que ainda me cabe ser alguma coisa qualquer.

Meus abismos tão mais fundos e o vazio mais pungente e a dor mais exposta. Me atirei da janela, caiu mais alma ferida do que corpo. Caiu mais dor de alma. Meus abismos caíram todos juntos a mim. Me atirei da janela, sem corpo e sem alma.