Uma foto velha e a certeza que te conheço, mas não reconheço

taPassei alguns lassos minutos encarando seu rosto insigne na fotografia. Sequer me atrevo a dizer que admirei ou olhei. Encarar é um termo que condiz bem mais com o momento. Logo eu que já te admirei em tantos outros incontáveis momentos, agora te encaro num misto aflitivo e quase superado. Digo quase.

Você me lembra alguém, com seus dedos levemente tortos na foto. Com seus olhos redondos e vagantes. Com sua expressão de quem sabe exatamente quem é. Mas, por deus, você me lembra alguém que não você mesmo. Talvez, e agora sim me atrevo num ímpeto tempestuoso, você me lembre quem tu jamais fora. Quem eu criei e alimentei. Quem eu por dias sem fim acreditei que foste. Dono de olhos mais redondos do que de fato eram. Mentira, seus olhos são visceralmente redondos e afáveis. Pena que nunca me olharam de fato. Sempre de soslaio enfadonho, sempre um jogo sujo de entre dizer, mal dizer. Um jogo ameno de nunca chegar. Nunca de fato chegou, mas partiu e levou dois terços de meu peito embora.

Engraçado como agora, e tão somente agora, vejo que na foto há tanto mais além de ti. Eu que antes olhava e via apenas a imensidão de seu olhar oblíquo e meio sorriso, agora vejo tanta coisa, tanta gente, tanto mundo. Até diria que a foto cresceu, se estendeu ou que é outro retrato. Mas acho que foi você, junto às suas cores todas, que diminuiu. Pois veja, tu até ficou um tom a menos, quase monocromático.

Quase uma foto nova, ainda que velha. E seus dedos tortos que contrastam com as linhas retas do fundo da foto me fazem rir. Por deus, há poucos meses me fizeram lamúrias pela falta de toque seu, hoje me tecem um quase sorriso de graça. Eu que morri da ausência tua, hoje permito-me admitir que a dor se borda em um passado que começa a passar. Ainda que não por completo, ainda que seu rosto me lembre alguém que tu me eras e não foi mais. Ainda que eu tenha aquele ímpeto de que te conheço na foto, mas não mais te reconheço.

Seus olhos redondos e esguios me rememoram os toques e a ausência sua. O modo como alguém sai da sua vida, diz muito mais a respeito dela do que o modo como ela entrou. Você surgiu com seus dedos tortos e seu sorriso doce e eu bordei em ti esse retrato. Quando sua ida me destroçou o peito e quebrou os vidros, era essa maldita fotografia que eu ainda via. Meus olhos cegos e tolos demoraram pra desbotar os adjetivos que eu teci em ti.

Mas agora eu vejo mais longe esse você que, senão passado, haverá de passar. Com seus dedos ainda tortos e seus olhos arredondados, percebo uma foto toda e você um tanto mais exíguo, quase sem cor, quase sem dor.

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