Tuas casas e silêncio

porque tua presença é uma dúvida amargurada em mim, então escrevo teu nome nas paredes da alma. Rabisco na pele tuas vagas palavras que sequer sei se foram para mim. Me abraço naquele riso teu que, iludida, acredito ter sido meu. Não fora, mas gosto de lembrar dele como se me pertencesse.

Quase berrei teu nome, mas meu silêncio é sempre um eco na casa. Quase muda, quase me mudo todo dia. Um outro lugar qualquer que não tenha seu perfume exalando pelos quartos e salas. Um lugar qualquer que me deixe esquecer que você nunca veio, nunca esteve.

Escrevo teu nome três vezes e só mais essa noite eu me debruço em suas ausências. Quase me mudo dessa porra de casa, mas tuas palavras pesadas trancam as portas e o silêncio é uma decoração ensaiada. Quase muda, mas nada muda.

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Tardar

Acendi um cigarro. Juro que esse é o último. Ou talvez o último tenha sido há duas carteiras e alguns cafés amargos, já não sei. Mas pouco importa quantos cigarros queimam entre os dedos quando o fim da vida queima feito uma quimera.

Sentei nesse sofá marrom desbotado, apreciei a sala sordidamente vazia, uma solidão pungente que me dói o âmago e, ainda, assim, me reconforta. Estar só uma dor inefável e a mais prazerosa.

Hoje o dia me foi árduo, cheio, caótico. Mas aquele caos comum, com feitos e obrigações de uma vida. Agora a noite é muda. Me repouso em minha plena ciência de mim e tão somente eu me toco. Mas quase não me sinto.

A vida tem sido vaga demais, morna demais. Meus dias costumam entardecer comigo escorada nesse sofá sujo e velho e. Os dias já tiveram seus timbres e agora soam sem ritmo, a porra da minha vida teve um sentido ainda que fosse de encontrar algum sentido nisso tudo. Mas as despedidas são alvoroços de agonia e fervor, depois há vazio, há um canto escuro em nosso peito.

Hoje deixei passar três rostos que me pareceram almas doces. Deixei que passassem porque meus dias cinzas não irão interessar às almas boas. Sempre me designei a atender àquelas desesperadas, sem rumo, sem amor. Sempre achei que amar era achar um colo afável para se recostar, mas só fui capaz de sentir afeto por aqueles corpos atordoados pela imprecisão de sentimentos. Algum filme já falou que nós aceitamos o amor que achamos merecer. Passei minha vida achando pouco, recebendo pouco, doando demais.

Meu sofá marrom envelhecido há de ser prova desse enfadonho processo de me dar, me exceder e morrer da asfixia só, e tão somente, do meu amor. Nunca recíproco, numa sendo um colo protetor de minha’lma.

Me peguei entardecendo nesse sofá depois de tragar seis mortes e nenhuma alma tua. Depois de apagar no cinzeiro alguns cigarros e não sentir mais nenhum perfume teu. O sol morreu entre as cortinas semi-abertas e você se esvaiu entre meus decrépitos ensejos de vida.

Mas tudo bem, tudo bem, pequena. Me mantenho fenecendo em minha podre solidão. Até que ressurge alguém que me afronta e me colore os dias. Então tomo um chá quente, limpo os cinzeiros, abro as cortinas. Tudo bem porque alguém traz um novo perfume à casa e quase esqueço dessa necessidade rota de viver a base da vida alheia. Por deus, espero que as almas que ainda irão roubar essa minha solidão vejam em mim muito mais do que eu vejo.

Você viu, porra, você viu um sem fim de coisas boas em mim. Mas nós aceitamos a carga afetiva que achamos merecer. Apaguei a luz e esse último cigarro. Desculpa, é que não soube tragar uma alma tão forte quanto a sua.

Seis palavras um ponto

Suas palavras foram um soco seco em meu estômago. Vesti suas frases como, diariamente, visto minhas dores e ilusão de segurança. Não sei ao certo se são traduções de sua alma um tanto medrosa e espantada, ou apenas uma licença poética de quem vive de roubar os sentimentos alheios. Mas se tu é uma alma leve que, por poesia ou amor, adota o abismo da incerteza, tu faz de modo digno e apreciativo.

Sequer ouso te perguntar se tu sofres de fato ou compartilha apenas a ilusão. Mas pouco importa. Suas palavras vagas e rotas recobriram minha pele. É bom sentir-se vestida em meio ao desespero. É bom uma camada, ainda que fina e distante, de compreensão.

Mais uma noite rompe minha percepção de tempo. O tempo se esgota todo dia, dia após dia, e tudo que me parece complacente tem se esvaído entre os dedos meus. Não mandei cartas, nem vivi amores. Me abracei mais forte com suas palavras distantes e fiz-me crer que basta. Me basta essa ausência compreensiva. Me basta a solidão de corpos e almas e fogos que inebriam e cegam. Porra, a solidão é um caos fodido que se costura e cicatriza n’alma. Me deixei escorada num canto da vida e deixei-me de viver. Fui sendo uma coadjuvante da minha própria peça, fui também a plateia toda incorporando as dores. O vazio é um agudo insuportável.

Mais um vez suas palavras me ressentiram, me pesaram o peito e o corpo todo. Mais uma vez deixei o dia morrer entre meus ensejos e vontades nulas. Sua peça é demais pra mim. Não ouso sequer intrometer-me em suas falas. Mas elas me vestem como um manto árduo e velho e. Como uma maltrapilha de seus sentimentos eu me afugento no meu não viver no escuro. Eu sequer sinto, mas me ressinto por esse peso que me pesa.

Um velho, um cigarro e porra da minha vida numa sarjeta

Li Bukowski e suas linhas solitárias. Li seus poemas, suas novelas e adotei Henry e seus personagens. Amei alguns livros como nunca antes amara nada mais. Fiz dos parágrafos daquele velho safado minha companhia nas férias e nos momentos de ócio.

Li Bukowski porque ele fora um dos poucos autores que rejeitaram a felicidade. E eu o amei por escrever alguma coisa que nenhum outro autor me fez sentir: compreensão. Li seus poemas buscando uma justificativa para continuar nessa porra toda. Li por medo.

Ah, meu velho, te li pois você era um bêbado inútil, um velho decadente morrendo de fome e de medo e de ojeriza por essa gente toda. Você falou sobre o asco pela humanidade, e eu te li buscando justificar que meu repúdio por essa gente toda e minha incapacidade de ser feliz não são um eco amargo em mim.

Amei Buk e sua renúncia em ser alguém. Pois em mim, tudo é um esforço árduo de ser alguma coisa e, no fim, não ser nada. Claro que outros autores maldisseram a humanidade, desamaram a alegria da vida, a euforia da rotina. Mas não quero ler Nietzsche, não posso ser Nietzsche. Quanta tolice, também não ouso querer ser Bukowski, mas é bem mais fácil me identificar nesse repúdio à alegria isolada, morrendo entre cervejas e cigarros. Nietzsche não teria esse roto encanto.

Amei as linhas sujas que disseram que a gente toda deve ser evitada. Amei ainda mais quando a solidão daquele velho sujo me abraçou e, então, me senti menos sozinha. Ainda que no fim de cada livro ou poema, me sentisse afundada em mim, num buraco vago e oco de mim. Amei cada linha e cada porra de texto amargurado desse Buk sórdido e desajustado porque ele não queria ser amado. Talvez merecesse, mas não queria.

Um café frio e não estou aqui

 

Quis escrever, numa ânsia, numa súplica vazia, quis despejar numa folha branca e vaga esse peso árduo. Revirei em minha mente torpe um nome, uma alma capaz de receber o peso de não mais me equilibrar num corpo. Busquei velhos amigos, amores dilacerados, um conhecido qualquer que me prezasse os ouvidos. Não teve ninguém. Senti-me só, numa solidão varrida e surda e tola.

A música ressoa pela casa e eu me debruço nesse sofá desbotado e velho e frio, me recubro com o manto escuro de não estar mais aqui. Por deus, não estou. Há dias a casa está vazia, a TV ligada e o café esquecido. Há dias não sei que dia é. Nenhuma alma visitou-me, mas tudo bem, as pessoas têm me causado certo cansaço.

Me sentei na sala e estendi minha alma no chão frio. Os cigarros queimaram amargos há dias no cinzeiro, derrubaram a brasa ardente entre meus dedos e sequer senti falta. O café borrou a toalha, secou nas xícaras, respingou em meus sapatos. Nenhuma alma visitou-me, mas tudo bem, a solidão preencheu meus espaços ocos de tal modo que não há mais lacunas para ocupar-me.

Ah, se eu soubesse escrever diria que meus dias têm matado o que resta de mim. Se eu soubesse preencher uma linha toda sem o desassossego e a agonia de quem não sente e não se sente, eu escreveria sobre os dias que já me foram vívidos, vividos. Dias inteiros de paz. Porra, uma paz danada. Uma necessidade de estar e ser e. Mais do que isso, um dar-me a mim como único motivo de persistir. Já não me caibo, não me mereço e, se me dou, me desprezo. Morri três vezes deitada nesse chão duro e frio.

Queimei junto com meu último cigarro. Morri asfixiada da minha imprópria necessidade de mim. Mentira, morri da ojeriza de mim, do medo de mim, do meu eu incerto no mundo alheio. Morri fechada no meu eco sórdido de não me suportar, não me habitar, não ser mais nada que me baste. Hoje, as horas não passaram, mas já é noite. Se eu soubesse escrever, diria que não estou aqui. Nunca estive.

Uma paz um pouco mais funda do que deveria, mas ainda assim paz

Minha pequena, os dias escorreram entre os dedos meus. Apressados, me cobrando uma estadia lúcida que quase não soube lidar. Ainda assim, se arrastaram em imensidões solitárias. Faz tempo que não te escrevo. Quase não havia tempo, e quando houve, faltaram-me palavras, fôlego, vontade. Por deus, vontade.

Não de ti. Vontade de mim, de ser, de estar. O silêncio e as ausências me dão uma paz danada. Mas também me jogam nesse abismo egoísta de mim. Não me arrisco dividir, ser um pouco mais fora de mim. Me apertou o peito a falta das suas mãos ligeiras me puxando pro mundo. A companhia que soa incômoda às vezes é o feixe de luz que nos salva.

Por onde anda iluminando, pequena?

Pouca gente veio depois de ti. Alma quase nenhuma. Uns corpos meio vagos, umas vidas meio mortas, um sem fim de gente desinteressante. Morri de tédio. Me vesti de meu desinteresse por essa banalidade toda e assumi a solidão. Não andei com tempo de repousar no vazio. Tudo era calma. Uma paz um pouco mais funda do que deveria, mas ainda assim paz.

Senti falta de um caos alheio. Tu que me moldava em um sem fim de agonias, ainda me traz a lembrança de ser a mais doce dos desesperos. Ah, menina, te falei o tanto que bordei ensejos em tua tez pálida. Mas sobraram-me teus fios caídos no travesseiro. Sobraram-se teus batons borrados na toalha. Ainda há pouco sentia teu cheiro pela casa. Pela alma.

Mas hoje foi a saudade acompanhada de um riso doce. Daqueles que asseguram que o passado me passou. Daqueles que me garantem que te vejo se debruçando em outros caos e outros sóis e te desejo um bem danado. Sem retornos, sem teus olhos nos meus. Sem tuas mãos me puxando de volta pra um mundo fora de mim, fora de meus sórdidos eus. Ei de vir um outro alguém que me puxe de volta ou que adentre-me em companhia eufórica.

Mas era só pra te lembrar que, onde tu estiver, me deseja coisas boas também, porque de ti me sobrou apenas a saudade ecoada e um riso doce. Doce.

uma camada fina e fria que ocupa um canto escuro da casa

Agora, nesse exato momento ainda é dia. Talvez meio nublado ou com uma claridade nebulosa, talvez sem sol, mas ainda é dia. Lá fora.

Fechei as cortinas, encostei as postas, me tranquei o mais fundo dentro de mim. Não quero incômodos, não quero mais dividir sentimentos, minhas angústias dominaram meu peito e transbordaram minh’alma. Todos os meus poros exalam inexatidão do meu eu.

Há dias que não converso, o telefone repousa mudo aqui ao lado – às vezes até retiro do gancho pra ver se ainda funciona. Funciona. Me lembro de que o mundo segue um ritmo que não pausa pra juntar nossos destroços dos cantos da casa.

Hoje eu sinto a solidão me cobrir como um manto pesado. Ah, não venha me dizer que é minha culpa. Sei que sempre preferi a solidão e os momentos de introspecção. Sei que mil corpos vazios me ocupam tanto quanto mil espaços vagos. Mas digo, numa confissão dolorosa, tenho estado em momentos cruéis. A ausência de vida tem me sugado a necessidade de viver, as lágrimas já são caminhos constantes em meus dias.

Não sinto, por deus, não há nenhuma necessidade de amor e um corpo ao lado meu. Mas sou uma frágil essência que precisa de um impulso egoísta para fazer valer a vida.

Não há mais sol aqui dentro. Se é que houve. Se é que, em algum momento, não fora sempre o sol e a vida e a vontade do outro que me impulsionaram. Agora sou uma camada fina e fria que ocupa um canto escuro da casa. Sou um nada mais vagando entre cômodos e cumprindo os afazeres que me designam.

Os fins de semana são constantemente sinais vitais falecendo. Os domingos não me obrigam a nada, a não ser a extrema consciência de que morri há tempos e me sobrou apenas a rotina exaustiva de fingir que persisto incólume depois de ter meus pedaços estraçalhados pelo chão.