Tardar

Acendi um cigarro. Juro que esse é o último. Ou talvez o último tenha sido há duas carteiras e alguns cafés amargos, já não sei. Mas pouco importa quantos cigarros queimam entre os dedos quando o fim da vida queima feito uma quimera.

Sentei nesse sofá marrom desbotado, apreciei a sala sordidamente vazia, uma solidão pungente que me dói o âmago e, ainda, assim, me reconforta. Estar só uma dor inefável e a mais prazerosa.

Hoje o dia me foi árduo, cheio, caótico. Mas aquele caos comum, com feitos e obrigações de uma vida. Agora a noite é muda. Me repouso em minha plena ciência de mim e tão somente eu me toco. Mas quase não me sinto.

A vida tem sido vaga demais, morna demais. Meus dias costumam entardecer comigo escorada nesse sofá sujo e velho e. Os dias já tiveram seus timbres e agora soam sem ritmo, a porra da minha vida teve um sentido ainda que fosse de encontrar algum sentido nisso tudo. Mas as despedidas são alvoroços de agonia e fervor, depois há vazio, há um canto escuro em nosso peito.

Hoje deixei passar três rostos que me pareceram almas doces. Deixei que passassem porque meus dias cinzas não irão interessar às almas boas. Sempre me designei a atender àquelas desesperadas, sem rumo, sem amor. Sempre achei que amar era achar um colo afável para se recostar, mas só fui capaz de sentir afeto por aqueles corpos atordoados pela imprecisão de sentimentos. Algum filme já falou que nós aceitamos o amor que achamos merecer. Passei minha vida achando pouco, recebendo pouco, doando demais.

Meu sofá marrom envelhecido há de ser prova desse enfadonho processo de me dar, me exceder e morrer da asfixia só, e tão somente, do meu amor. Nunca recíproco, numa sendo um colo protetor de minha’lma.

Me peguei entardecendo nesse sofá depois de tragar seis mortes e nenhuma alma tua. Depois de apagar no cinzeiro alguns cigarros e não sentir mais nenhum perfume teu. O sol morreu entre as cortinas semi-abertas e você se esvaiu entre meus decrépitos ensejos de vida.

Mas tudo bem, tudo bem, pequena. Me mantenho fenecendo em minha podre solidão. Até que ressurge alguém que me afronta e me colore os dias. Então tomo um chá quente, limpo os cinzeiros, abro as cortinas. Tudo bem porque alguém traz um novo perfume à casa e quase esqueço dessa necessidade rota de viver a base da vida alheia. Por deus, espero que as almas que ainda irão roubar essa minha solidão vejam em mim muito mais do que eu vejo.

Você viu, porra, você viu um sem fim de coisas boas em mim. Mas nós aceitamos a carga afetiva que achamos merecer. Apaguei a luz e esse último cigarro. Desculpa, é que não soube tragar uma alma tão forte quanto a sua.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s