Ao meu lado

Hoje foi um dia bonito. Apesar de todas as dores minhas, do meu eu desmoronando em seis catástrofes por segundo, o sol pairou radiante durante todo o dia. Lá fora foi um dia bom. Dia que há tempos não tenho. Por deus, agora minhas lágrimas pesam toneladas e meu peito está remoído nesse chão sujo. Queria deitar em seu colo e repousar meu medo e angústia no que sobrou do nosso afeto. Se é que restou algo que não tenha sido manchado, ferido e rasgado nesse anos tortos. O que fizemos da gente? Queria colar nossos cacos num remendo sem fim, mas tudo que consigo fazer é te olhar aqui do vão da porta. Queria abraçar tuas feridas todas e dizer que eu tô morrendo junto de ti, mas tudo que posso é chorar à noite pro barulho ser menor.

O dia foi bom e a noite vem carregada de uma penumbra maldita. O dia me tocou com seis raios de sol e sequer por um segundo eu lembrei como ser feliz. Eu tô morrendo e não sei fazer tua dor parar. Há alguns anos você me era pousada, colo, afago. Agora me escoro nas lembranças e não sei como chegamos aqui. Mas sua silhueta distante me faz ver que não consigo ultrapassar essa porra de porta entreaberta. Sua sombra chorosa me fere sete níveis da minha alma e eu nem sei mais se tenho uma.

Você fecha os olhos por mim todas as noites e bendiz meu nome. Os dias estão pesados e nenhum deus tem me salvado nesses tempos amargos. Mas eu agradeço, assim me livro do peso sórdido de orar por mim. Nenhum deus acredita no que restou da minha alma. Tudo bem, nem eu acredito que restou muito coisa. Coisa alguma.

Você repousa solitária no quarto ao lado e eu arrancaria suas dores de ti, mas eu sequer sei como suporto o inferno que me abraça há anos. Se eu soubesse viver, eu estenderia meu corpo no colo teu, eu tomaria suas mãos, eu quase lembro que um dia te abracei. Mas eu não sei se posso ultrapassar essa porra de porta, então eu apago a luz e choro baixo pra você não me ouvir.

Anúncios

tuas memórias e teu vazio de mim

Em meio a esse vazio que ecoa e me ensurdece, em meio às xícaras vazias, os cigarros mal fumados e à cama bagunçada, sobrou muito de você. Por deus, sei que há de passar, sei que esse vazio vai ser preenchido aos poucos e que os dias corriqueiros, as banalidades e o trabalho fodido vão me distrair. A gente sabe que essa dor uma hora cessa. Aliás, agora nem mais dor é. Já faz tanto tempo e ainda me despedaço da ausência tua, quanta tolice. Mas, como eu dizia, nem mais chamo de dor, agora nomeio de vazio, de eco, oco. O seu amor varreu minha alma e há algum tempo deixou de latejar, mas vez ou outra a ausência tua me recobra e percorre o corpo como uma corrente elétrica de feridas e sorrisos que não demos. Mas vai passar. Assim como você passou por mim e não quis ou não pode ficar, a sua ausência vai passar.

Se eu pudesse te pedir alguma coisa, se eu ousasse te fazer menção, pediria que levasse logo tuas memórias e teu vazio de mim. E, por deus, me sinto orgulhosa, pois nunca ousei querer te pedir pra ficar, mesmo em meio à ânsia de te berrar e suplicar e desejar que me ficasse, me cuidasse.

Sua ausência escorre pelas paredes, suja os móveis, respinga no chão da minha alma. A gente sempre acha que é o fim e a dor é grande e a solidão nos veste apertada. Mas já passou outras vezes, já doeu um sem fim de dias, o amor já me atravessou o peito como uma lança cega, mas os cafés voltaram a ser quentes depois de algum tempo. Agora eu me sento em meio às suas memórias e deixo que a falta tua ecoe em mim. Deixo que seus cigarros resistam queimando no cinzeiro e coloco meu amor no vazio da cama tua.

Agora

Meus pés estão gelados e a água do chuveiro respinga quente demais no chão. Meu corpo sequer se move. Acho que já faz horas que estou inerte, em pé, sem roupa, sem alma. São oito da noite e lá fora tudo é pungente. Aqui há só uma unha rasgando minha pele branca. Lá fora o mundo parece tão mais vívido. Um garoto se apaixona, uma festa, alguém beijando três bocas, um assalto, sexo, um casamento, alguém fumando maconha, alguém morrendo de overdose, uma puta passando batom vermelho, um cachorro atropelado, seis corações partidos, um suicídio. Nesse exato momento há mais vida em qualquer velho abandonado no asilo do que em mim. Nesse instante eu não existo. Se não fossem meus pés gelados demais e um dor fodida que vez ou outra percorre meu corpo como uma corrente elétrica, me daria como morta. Não, acho que os mortos merecem mais condolências do que esse vazio eu. Se não fosse pela água que escorre quente e lava o sangue, se não fosse pela unha minha que faz meu braço sangrar, se não fosse pelo sangue que pinga nos meus pés frios, eu deitava bem aqui e esperava a morte me resgatar.