Agora

Meus pés estão gelados e a água do chuveiro respinga quente demais no chão. Meu corpo sequer se move. Acho que já faz horas que estou inerte, em pé, sem roupa, sem alma. São oito da noite e lá fora tudo é pungente. Aqui há só uma unha rasgando minha pele branca. Lá fora o mundo parece tão mais vívido. Um garoto se apaixona, uma festa, alguém beijando três bocas, um assalto, sexo, um casamento, alguém fumando maconha, alguém morrendo de overdose, uma puta passando batom vermelho, um cachorro atropelado, seis corações partidos, um suicídio. Nesse exato momento há mais vida em qualquer velho abandonado no asilo do que em mim. Nesse instante eu não existo. Se não fossem meus pés gelados demais e um dor fodida que vez ou outra percorre meu corpo como uma corrente elétrica, me daria como morta. Não, acho que os mortos merecem mais condolências do que esse vazio eu. Se não fosse pela água que escorre quente e lava o sangue, se não fosse pela unha minha que faz meu braço sangrar, se não fosse pelo sangue que pinga nos meus pés frios, eu deitava bem aqui e esperava a morte me resgatar.

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