Notas sobre o fim

A morte é a última e mais efêmera saída. O caos habitado, a dor suplicada e replicada e fazendo moradia fervorosa em nosso peito.

Dizem que morrer não soluciona nada, não apaga a dor, não flui o ciclo pulsante que deveria ser a vida. Deveria se não fossem as feridas expostas, os males rasgando a alma. Dizem que não é a solução, mas tudo bem, pois nada tem sido também. Nem meditação, yoga ou chá de camomila. Nem amigos, bares, risadas forçadas. Noites bem dormidas, foco, abstração. Nem cigarros acumulados no cinzeiro, cerveja mais quente do que gostaria, futebol no fim do domingo. Nada tem sido. Nem as músicas novas, os clássicos sofridos, os filmes solitários. A companhia alheia, o amor que não vem, os choros em fim de tarde, os tarja preta. Nem a corrida no parque, três comprimidos a mais antes de dormir, um chuveiro esquecido pingando. Nada tem sido a solução para essa dor que não cessa e, insistente, jorra de mim e me fere, me estilhaça, me entorpece. Essa dor que me amarra os pulsos e venda os olhos, me deixa estirada num chão ardente de caos. Morrer não é a saída, é o fim.

faz três anos que morri. Ou trinta

Eu te ligava às 3 da manhã de quinta e te oferecia meus últimos cigarros, menina. Tentava perceber a alegria ou o desespero e seus timbres tímidos. Entreguei minha alma num envelope sujo só para que você soubesse sobre mim. Eu que geralmente sou boa ouvinte quis, enfim, falar. Logo eu que nunca quis nada de ninguém desejei  que você me conhecesse. De corpo, alma e vísceras. Talvez mais alma, a parte suja desse meu eu.

Te contei minhas músicas preferidas, meus pecados sórdidos, me escondi debaixo de sua saia rodada e seus batons vermelhos. Me escorei em sua alma calma e ainda assim o fim foi mais breve do que deveria. Me afetuei demais talvez pela vã esperança de crer em um amanhã que nunca me veio. Mas tudo bem, uma vida não me sustenta. Não essa, ao menos.

A pior dor do não recíproco é que, porra, eu te pedia pra ficar na máxima representação de meu afeto por ti. Deus, como precisei que você ficasse aqui, ficasse em mim. Bastava você com seus risos amenos, suas falas doces, seus olhos vagos. Bastava seu perfume, sua paz e seu silêncio, então eu valeria como há tempos não valia mais.

Eu me importava e você bem-me-queria, mas só num ato de querer-me sem pretender-me. Não te culpo, menina. A vida tem dessas coisas, desses jogos confusos, dessas sensações de que a paz nos toma de repente, nos suspende em plenitude e então se esvai, se desfalece entre os dedos nossos.

Porra, eu morria cada vez que seus dias corriam bem sem mim. Eu que tanto quis que você dissesse pra eu ficar e te cuidar e me cuidar. E você muda. Precisava que me desse afeto para que, quem sabe, eu conseguisse me ter amor também. Porque é como se o afeto fosse mais presente, mais latente. Sei que não posso exigir nada, sequer uma expressão vaga e torpe de um afeto que talvez nem tenha sido amor, mas tentei desesperadamente sobreviver a mim. Minha cama, corpo e alma estavam vazios e, por um segundo ou mais, seus olhos me avivaram numa ilusão fodida. Suas não palavras me prometeram o que só eu ouvira.

Hoje te escrevo como quem confessa que abandonou a casa, o corpo e a voz. Estou muda de novo. E surda, não te ouvi. Logo eu, pequena, que sempre fui um barulho ensurdecedor por dentro. Bobagem isso. Hoje faz três anos que morri. Ou trinta. Já não sei contar e pouco me importam as contas. O fim me é uma questão de tempo e nem falsos afetos me protegem de mim.

Juro que poderia ver o desenho de seus lábios sórdidos pronunciando um pedido de estadia minha. Fica. mas não teve, porra, nunca teve estadia, nem amor. Nem você. Nem eu. Nunca estive em mim.

Fim

Insuportável é minha inexistência
em mim. Digo, sou perfeitamente afável entre rostos estranhos e
rotinas cansativas e
um emprego fodido 

Sou convincente em minhas tentativas sórdidas de
contemplar cada espaço dessa porra de
mundo mas nada me cabe

mentira. muita coisa cabe em mim
coisas demais Coisa feridas mortas e que
me matam de dentro pra fora mas sempre mais
pra dentro mais fundo mais denso

Essa noite o mundo não cabe mais
em mim. Logo em mim, que nunca coube
em porra nenhuma

não há muito além do espelho sujo

Faz menos de um mês que cortei meu cabelo e essa porra já alcança meus ombros. Bom, talvez faça mais de um mês – eu tenho perdido a noção do tempo e os dias não seguem mais nenhuma lógica. Mas pouco importa. Na verdade nada mais importa.

Eu odeio a sensação desses fios caindo em meus ombros, crescendo como uma promessa sórdida de que alguma coisa realmente vive em mim. Olha que graça, menina. Eu, esse ser erroneamente vivo, esse ser que pouco vive, e ainda há de ter muita pulsação orgânica aqui. Que desperdício.

Mas, não, não… não são os cabelos curtos que me fazer sorrir. Nem é necessariamente o gosto por fios rentes à orelha e o frio na nuca. É que quando olho pra esse espelho sujo e essa porra de reflexo estranhamente morto, vejo os fios crescendo dia após dia, eu me situo nessa vida. Nesse estar aqui sem a certeza de que estou – tolice! Burra, menina burra que sou. Tenho a plena certeza de que a única coisa que ainda vive aqui é esse amontoado de células e entranhas e vísceras unidas que fazem meus fios crescerem. Crescerem e me cobrir os ombros, os olhos.

Quase que numa súplica, corto aos maços tortos pedaços desses finos fios. Mostro a cara, os ombros, as orelhas. Vou raspando aos montes esses pedaços escorridos com uma lâmina quase cega. Amontoo no chão dezenas, centenas de pequenos fios, frágeis fios. E em minha cabeça restam pedaços bagunçados de meu cabelo. De minha alma. Suja alma. Vou rasgando as fibras de fios, vou raspando a essência, a pungência. Corto aos montes, sem dó, sem direção isso que insiste em crescer nesse corpo sem vida. Queria cortar mais fundo. Mas a lâmina quase sem fio mal é capaz de quebrar esses emaranhados finos de meu cabelo sem vida.

Odeio esse espelho que insiste em refletir que ainda tô aqui. Tô aqui. Em dezenas de maços picotados ao chão.

Morrer não dói

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O dia amargo está queimando minha pele como a brasa de um cigarro. A memória desses dias vazios tem me ardido os olhos e não resta nenhuma felicidade, fé ou futuro em mim. Mas não é sobre isso que quero falar, menina.

Olhe só, entre minhas dores e vazios imensos, me deparei com essa foto. Ah, tu sabe como admiro essa mulher. Entre meus livros biográficos e sua foto pendurada em minha parede, alimento um afeto estranho, daqueles que só são possíveis quando destinados à gente morta.

Amo Marilyn e todas as mulheres por trás dela. Amo Norma Jane e toda as dores dentro dela. Sua feição inocente, seus traços apaixonantes, sua carência exalando entre as linhas de seu riso quieto e seus olhos presentes. E o modo como Norma Jane se transforma em Marilyn com seu riso sordidamente encantador, sua vida, sua presença toda.

Porque eu vejo a dor da solidão vestida em Norma e vejo o batom de Marilyn. Eu vejo o medo de uma menina abandonada e mal amada ser encoberto pelos brilhos e tons de vermelho veludo de uma mulher criada para ser tudo que Norma não é. Ainda que seja.

Eu poderia olhar para essa transição da inocência de uma menina mal amada para a certeza de uma conquista do mundo por um sem fim de horas. Eu não sei quem matou essa mulher, se Marilyn ou Norma, mas a dor estava lá. Eu não sei quem doeu e quem resistiu. Morrer não dói.

Fenecer

Posso sentir a dor tão latente e imensurável que chego a vê-la serrando os pulsos meus. Posso sentir a agonia vendar os olhos meus e me ensurdecer por dentro. Nessa noite eu ouvi a solidão e a tristeza se aproximarem em passos lentos e suspiros aflitivos. Essa noite eu não dormi.

Se eu tivesse ainda algum resquício de força ou alma, eu pediria esperança para persistir. Ainda que houvesse apenas alma, eu pediria resistência, um dia mais leve, um motivo para me fazer crer num riso calmo. Mas não há. Não há mais porra alguma além desse meu eu inóspito, vazio, agudo e podre. Nada além de um corpo ferido, uma alma perdida, uma mente cansada. Minhas cicatrizes todas sangram nessa folha meio suja, meio amassada. Minha alma toda se estilhaçou pelas calçadas frias. Se houvesse fé, ainda que pouca, eu pediria menos dor. Mas como tudo que resta sou eu, eu me encaro no espelho esperando não ver mais nada, pois o que reflete me causa agonia.

Nessa noite, tudo que me resta é contar os passos lentos do caos que me toma.

Meu desalento

Existe algum céu menos inebriado do lado de lá. Mesmo com uma porta imensa que me dá passagem, há uma atmosfera insípida que me impede a travessia.

Os dias soam lentos e dolorosos. Os dias soam vulneráveis. Eu quase nem soo mais. Me tornei um eco, um timbre agudo e irritante que não me deixa dormir. Eu sou meu próprio escopo vertiginoso.

E nessa montanha russa desfragmentada, a subida me rouba o ar e você me mantém um segundo a mais dentro de mim. Ainda que sem luz, sem vida, sem espaço, você me segurou em mim. Há tempos que nenhuma alma me almeja como a promessa tua me encanta. Por deus, não me larga agora. Eu sei que os olhos meus se perdem e que há dias de imensidão obscura. Mas venho te pedir pra não largar da minha mão. Depois desses tempos remotos que me roubam a paz, posso crer que há uma luz doce. Doce. Doce. Repito três vezes pra dar sorte. E se puder aguentar mais um pouco, se as mãos minhas forem sustento validável, se meu eu todo for algo que te seja perfume pela casa, fica. Me fica.

Eu há tempos não queria mais vida alguma, há tempos não queria mais conhecer ninguém. Te digo que há muito eu até me interessara por gente e suas histórias todas. Agora, por deus, por você, eu quis falar sobre mim. Eu quis que tu me conhecesse, e eu nunca quis isso de ninguém. Foi fácil falar de quem eu sou mas nunca imaginei ser, e agora o medo de perder o que sou me rodeia junto ao medo de perder a presença tua.

Falei de mim e você estava em cada frase. Mas perguntei de ti tentando me encaixar entre seus dedos. Fui amor antes mesmo de saber se era real.