as luzes de fora

Os passos estão receosos e por fora o silêncio é incômodo. Você saiu e escancarou portas e janelas, fez cortinas esvoaçarem e derrubou os papeis da mesa. Você fez um vendaval sem pretender ficar para ver o estrago. Besteira, você nem pretendeu, de fato, chegar.

Seus olhos vagos vagam entre corpos que não são os seus, nem o meu. Não são corpos também. Amontoados de gente vazia e sórdida circulando num sem fim de ruas. E minha alma continua vazia. Se me atrevo um suspiro, ele ecoa por cem dias em mim e lateja. Arde. Fere. O cansaço me tomou os pulsos e as luzes de fora mais me cegam do que guiam.

Meus cigarros repousam no cinzeiro improvisado. Meu café esfria. Meu vinho toma tons amargos. Dor de alma. Cansei-me das pessoas todas e a solidão me corrói o cerne. Não tenho mais disposição para corpos novos e sua estadia catastrófica ainda deixou resquício no chão da sala, da alma.

Sua música soa rouca no rádio e eu jurei sobreviver mais um mês. Não sei se posso. Jurei seus olhos nos meus e sequer você me olhou. Jurei, então, abandonar sua alma na primeira esquina escura que me apertasse o peito, mas tudo que pude fazer foi me sentar entre ruas vazias e deixar a dor exacerbada reverberar em meu âmago. Senti seis ausências em mim e nenhuma delas me fez capaz de achar a humanidade interessante. Me cansei das pessoas e seus vazios imensos, suas necessidades fúteis, suas risadas cansativas e choros idiotas. Cansei de amarguras voláteis e essa hipocrisia velada em torno de gente que ainda resiste. Resiste?

Apaguei um cigarro no pulso esquerdo só pra saber que ainda sinto, mas é besteira, não me queima alma. Sequer digo que te vi fechar a porta, pois você passou pela casa levando minhas chaves de portas nunca trancadas. Você se debruçou em minha janela, mas quem pulou fui eu. Você olhou para baixo antes de me ver querer saltar. Quando eu saltei você já tinha partido meu peito em cem pedaços de alma desamada.

Fazia tempo que minhas palavras sujas ecoavam, mas nenhum corpo merecia ouvi-las. Escrevi para aliviar o peso da alma e ver se caio com menos força no chão. Me debrucei no vigésimo oitavo andar e daqui a lança cega da minha solidão não atinge essa gente vazia que não vê que já caí no chão frio da minha incapacidade de me ser.

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