Morri seis vezes desde que escrevi essa carta

Você fechou a porta e rumou com passos incertos de retorno. Não era  sua dor que me afligia e me fazia querer um só corpo em estadia presente. Era a força que me dava para persistir. Eu, tola e ingênua, presa no meu sórdido e sorrateiro eu que não sabe como viver. Vou sobrevivendo num misto de sorte e pequenos ímpetos corajosos de ação.

Aquelas todas rotinas humanas de crescer, estudar, trabalhar e morrer. Entre isso, música, caminhadas, sexo, suicídio e descrença humana. Tracei bem minha rota afogada nessa futilidade rotineira humana cheia de uma ojeriza repugnante.

Comportei-me bem em meus percalços e me eximi de qualquer rebeldia descabida. Fui boa filha, submissa aos olhos maternos e infringi minha leis. Fui boa aluna, entreguei meus trabalhos e me calei diante tantos outros afrontes. Fui boa funcionária em horários e prazos, noites maldormidas e resignação em comprimentos além do que eu deveria ou poderia fazer. Cumpri minhas metas humanas e nas horas vagas destruí minha vida num caótico refúgio de mim mesma. Senão odiando cada parte desse roto e sujo e torpe eu, maltratando-me em esferas contínuas de bebidas amargas, cigarros acumulados dia após dia, amores despedaçados, orgasmos fingidos, fodas sem dia seguinte, mas salva pela overdose de ilícitos que me faziam sentir alívio e a paz de estar fora de mim.

Sobrevivi aos conceitos humanos e odiei em última instância todos os seres humanos. Odeio a sociedade e tenho um pífia necessidade de conviver com ela. Alimento resquícios de um assassinato frio e calculoso por aqueles me me amam, salvo pelo desejo maior de me atirar de um prédio. Mentira, prédios são ríspido e crus. Desejo um quarto solitário e uma overdose de mágoas e ansiolíticos. Álcool. Por favor, Enche mais um copo, pois ainda restam 5 cartelas para morrer.

Morri seis vezes desde que escrevi essa carta e se deus quiser não morro mais nenhuma. Sequer termino de escrever. Cumpri meu papel de sorrir a um estranho, andar de bicicleta, ouvir meus amigos. Cumpri as normas implícitas de quebrar regras, mentir, roubar, trair. Enganei a mim e a deus. Desacreditei na força divina depois de já ter desacreditado em mim. Joguei minhas crenças num abismo desacreditável. Odiei todas as fés. Agora divido minha responsabilidade de boa moça com cigarros queimando na mesa, drogas que me afastam de mim, fodas em meio à noite escura e nenhum amor capaz de me fazer viver mais um dia. Eu morri há 10 anos e a rachadura do meu espelho virou um estilhaço de mim. Só sobrou esse fétido corpo meu para se decompor.

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