às camas vazias e nada mais sobrou

Vê se perdoa a ausência e me lê até o fim. Se ainda me lê, se ainda resta um ímpeto desassossego de me cuidar, insiste mais uma linha. Se puder, se ousar me sustentar mais um dia que seja, imploro como quem suspira um vestígio de vida. Por deus, menina, esses últimos meses foram um vendaval frenético e minha paz foi queimada numa brasa ardente de um cigarro barato. Logo eu que jurei em suas ausências me manter firme e forte e. Jurei caminhar durante as manhãs e manter a mente calma no trabalho, jurei diminuir o café, as bebidas e parar os cigarros. Jurei por ti e por mim, ainda que muito mais por ti, que seriam dias leves e calmos e doces. Ou seriam apenas dias amenos. Mas foram dias de caos e por dentro o vazio me consumiu e me engoliu mais e mais para dentro. Fui sendo uma repetição sem fim do meu vazio, feneci em mim. Fim. Mas, porra, eu que morria todas as noites querendo ressurgir como uma supra esperança, empolgada com uma inviável deterioração de vida, sucumbi. Me debrucei na minha incapacidade de me ser e, dia após dia, chorei em silêncio por não ter seu peito para me aninhar, seu afeto para cobrir minha solidão, seus olhos calmos para ocuparem os vazios entre o abismo e eu. Os cafés ficaram mais fortes e amargos, as bebidas mais frequentes e agora queimo a beira dessa carta com meu cigarro que há de ter todo o calor que ainda resta em mim. Pensa, menina, que os cinceiros derrubam restos de cigarros mal tragados por ti. Sequer tive a capacidade ou a audácia de limpar os restos teus dessa casa, dessa minha alma. Também não juntei suas roupas, seus perfumes ainda estão nas paredes, sua essência vaga em passos pesados entre a sala e o quarto. Mas toda vez que abro as portas é tão somente o peso da sua ausência que me abraça, se aninha entre meus dedos, me envolve o peito e torna minha estadia mais amarga. Acendo mais um cigarro porque você odiava que eu fumasse. Tento queimar suas lembranças com esse isqueiro um tanto sujo, um tanto fraco, mas você é como um aura que inflama, acende e, por fim, ascende em mim. A porra da tua lembrança só me fere o peito ao me dar conta que seu vazio da cama está cada vez mais gelado. A brasa perfura mais um lençol e meu caos escorre entre os copos que eram nossos. Acendo mais um cigarro porque você odiava que eu fumasse, mas é só para acabar de vez com essa sua carteira esquecida no fundo da minha gaveta. Da minha alma, te guardei no bolso.

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