emergiria entre multidões só porque seus olhos me eram únicos

Faz um bocado de tempo que o tempo passou, menina. Os dias, que no início da sua ausência eram longos e pesados, foram aos poucos retomando o tempo normal.Sua presença foi, lentamente, se esvaindo. Faz realmente um tempo danado desde sua última estadia em mim, um ano talvez. Ou mais, por deus, não sei contar quando foi exatamente que você se foi. Entre sua última palavra e minha certeza de que você partira levou um tempo grande. Sua ausência me habitou cem voltas de um relógio infinito.

Mas agora seu perfume sequer reside nos lençóis. Nem em minha memória consigo me lembrar de seu cheiro. Soa tolo pensar que a gente quase morre desses amores ocos e vagos e que, porra, parecem que não vão deixar a paz reabitar nosso peito. Mas eles passam, levando dias ou meses, em tempos amargos e tempestuosos, eles passam. Depois da casa vazia, da saudade ardida, da vontade te ligar e implorar pela pele na pele. Depois de um tempo em que os quartos continuam vazios, as luzes apagadas e nenhum outro corpo habitando a casa, passa. Um dia, depois de choros engolidos e a dúvida amarga do porquê o afeto tem esse senso de não-reciprocidade, passa. E depois a gente percebe que o perfume das paredes estão muito mais na memória ou que sequer há perfume mais. A gente nota que a presença alheia está mais no hábito, nas saudades e na dor do que, de fato, no amor.

Olhei sua foto hoje e sua familiaridade me soa tão estranha. Um corpo todo que foi um afeto meu. Uma alma que, por deus, eu quis envolver em sem fim de proteções e que eu emergiria todas as noites entre multidões só porque seus olhos me eram únicos. Você, que me era tão íntimo, familiar, sorriso perdido, agora aparece nessa fotografia como uma imagem desconexa. Te vejo e, ainda que muito perto de quem você me fora, não é de fato quem eu conheci. Me deu saudade, mas aquela saudade boa. Mentira, não é saudades… é leveza. É a calmaria daquele espaço que já foi caótico e agora é ameno.

Não sei, menina, por onde anda sua alma. Não sei se o perfume ainda é o mesmo. Não sei mais de seus sorrisos que tanto me encantaram. Mas os afetos passam, os perfumes secam e as ausências adormecem mesmo nas lembranças mais árduas, nos afetos mais egoístas. Você ainda me parece muito com aquela essência que conheci há um tempo danado. Foi bom te ver.

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