dos prédios altos, amores que não caem

Me sento no parapeito do vigésimo terceiro andar e olho esse amontoado de corpos ocos perambulando a tantos metros abaixo. Tolice a minha, pois sou mais um desse monte de ossos e carnes e vísceras e medos sórdidos. Sou alguém que agorinha mesmo caminhava esbarrando em um sem fim de gente vazia. As coisas vão pingando tons mornos em poças rasas, descolorindo a essência, fatigando o cerne. As luzes sequer acendem mais e as janelas se fecham cedo. O escuro é um olho vívido acompanhando nossos movimentos lentos.

As noites se tornam longas e as conversas cansativas. No final da semana a gente só esperava um corpo quente para dividir as mazelas e angústias. Ah menina, talvez isso seja tudo uma ilusão, mas os dias ao lado teu foram tão reconfortantes, tão sagazmente doces que quase creio nos afetos que nos permitem repousar a cabeça no peito nu e aliviar a alma.

Você me era a essência amarga que dividiria a insensatez desse momento comigo. Por deus, menina, seríamos eu e você rindo desses corpos mal amados que ziguezagueiam longe de nós, enquanto trocaríamos os cigarros de dedos e balançaríamos as pernas. Nossos vazios compartilhados formando uma rede segura da solidão. Não era a altura que nos assustava.

Mas alguma coisa se quebra no decorrer sôfrego das relações humanas. Alguma coisa me faz frequentemente perder o ritmo certo. Quando por fim me encontro no compasso, no tilintar ressoante e calmo e rítmico, mil ventos internos me roubam os passos. Agora me sento sozinha nesses parapeitos altos e distantes e ridiculamente sujos, meus cigarros têm gosto de suicídio e abandono. Nenhuma companhia para acolher minhas dores. A rede parece tão mais fina agora. Quase te vejo aqui  de cima e você me procura como alguém que me ouve chamar, mas não sabe ao certo para onde olhar. E eu que te acompanhei descer as escadas todas, sem tempo de chamar o elevador ou pedir que ficasse.

Sua partida tem gosto de alma vazia. Meu cigarro queima a ponta do meu coração. Me debruço nesse parapeito e trago as últimas memórias tuas. Olha para cima, olha para cima, olha para mim.

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