Ao fim dos corpos

Agora tudo é um silêncio incômodo e insustentável. Tudo dentro de mim é um berro alto, um caos insano que não me deixa ouvir a calmaria externa. Se ainda há alguma calmaria.

Deixei meu cigarro cair dentre os dedos meus, a brasa se esparramar ao chão em mil fragmentos flamejantes. Nenhuma brasa durou mais de três segundos, nenhuma resistiu. Mas não me importo, porque os cigarros têm sabor incômodo e amargo. Já não me trazem o sossego que antes me eram imediatos, ainda que passageiros.

Deixei também a bebida esquentar no copo. Logo eu que apreciava o poder anestesiante das bebidas amargas. Nada mais tem me dado momentos de fuga.

Na mesa, os rostos familiares me parecem cada vez mais distantes. Mais voláteis. Cada vez mais forçados e cansativos. Sucumbi a minha existência nesse bar. Não estou aqui. Permaneço escorada nesse canto da mesa e me recuso a participar dessas fortuitas conversas ridículas. Desse esforço gigante de parecer interessante e pertencente e integrada à vida. Não quero estar integrada a essa porra de realidade que não é minha.

Esses corpos vazios e vidas vazias e esforço extenuante para parecer normal numa mesa de bar enquanto toda a sua realidade fodida te consome. E a menina tão atraente ao meu lado parece não se cansar nunca de performar essa necessidade de estar ali. Quem precisa estar. Quem.

Eu me escoro na minha incapacidade de estar nesse bar, nessa mesa, nessa vida. Me debruço na minha fragilidade desse corpo cansado de ser porra alguma.

Nem os cigarros amargos, as bebidas fortes, nem esses rostos que num fragmento de segundo pareciam tão interessantes me trazem de volta à vida.

Quem se importa com política, economia, cerveja gelada, crise de relacionamento, início das férias, contas atrasadas, o cachorro atropelado, o mendigo que morre de fome do outro lado da rua. Quem se importa com o vazio existencial, a depressão do colega de trabalho, a ex namorada que tentou suicídio, a hipocrisia do cigarro na mesa e do LSD na carteira. Quem se importa com o yoga no domingo, a musculação nas segundas, quartas e sextas, o rodízio de carne no almoço, o perfume escolhido pra uma noite especial. Quem se importa com o casal em crise, o amor que não vem, a família desestruturada, seis fracos de ansiolíticos e uma garrafa de álcool. Quem se importa com a anorexia, os chocolates roubados, as crises de ansiedade e o choro trancado no banheiro. Quem se importa com a cocaína para abstrair, a cafeína para aguentar as tardes no trabalho e a traição com prostitutas nas quintas à noite. Quem se importa com a falta de afeto, a solidão consumindo o cerne, o abandono dos amigos, quatro corpos diferentes para foder numa noite antes de um lapso esquizofrênico. Quem se importa com chá de camomila, comida vegana, separação de lixo, caridade e noites permeadas por carência afetiva e perseguição ao ex marido. Quem se importa com a amiga internada, os remédios ilegais para emagrecer e as drogas para sobreviver. Quem se importa com o best seller na bolsa, os estudos em dia, o novo emprego conquistado e o garoto que pulou do vigésimo andar.

Ninguém. Os cigarros ficaram ruins e a bebida me embrulha o estômago. Não estou mais aqui.

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