Não havia espaço num só corpo meu para te vestir, te cobrir, te desenhar

A casa está vazia e incomodamente quieta. Fins de ano sempre deixam um espaço denso entre o que fizemos e o que quisemos fazer. Entre suas risadas quentes e seu hálito fresco, entre seus cigarros finos e seus copos borrados de batom, lembro que você ria desses ciclos comemorativos e a banalidade com que inflamam esperanças e energia nas pessoas. E como as palavras faziam sentido quando verbalizadas entre seus lábios e sua essência. Ah minha pequena, essa tenra e austera necessidade de nos reinventarmos, sempre essa porra de necessidade de ter força e ter vontade de continuar. E mesmo quando eu ria ao lado teu, era a sua presença que, dia após dia, criava minha reinvenção. Me refiz uma centena de vezes só para que você nunca enjoasse de mim. Me fiz em risos calmos, olhos flamejantes, me fiz em palavras amenas e tilintares delicados. Me fiz em um sem fim de afetos para ser capaz de te amar. Não havia espaço num só corpo meu para te vestir, te cobrir, te desenhar nas paredes de minha alma. Foi preciso me recriar todo dia para acompanhar sua vibração.

Agora a casa está vazia e morna e cálida. Agora os cigarros impregnam as paredes me lembrando que suas brasas apagaram há dias no cinzeiro. Agora as pontas do meu cabelo escoram na água dessa banheira e eu juro, por deus, eu juro que quase posso ouvir a fala tua ritmando um riso frouxo. Mas não ouço. Porra, eu não ouço nada além de resquícios de seu tom em minhas memórias, não vejo nada além das memórias bordadas em cada canto dessa sórdida casa que não sustenta mais a sua presença.

Agora me afundo um pouco mais nessa água que ainda parece quente demais para a pele minha, mas eu suporto. Afundo um pouco mais para ver se há mais presença sua debaixo da água. E entre um gole e outro desse vinho barato, entre a música rouca ao fundo, entre mais um, dois ou dez cigarros sujos que queimam entre meus dedos frios, você sussurra estadias, saudades e solidão. Você mergulha nessa banheira, entorna meu vinho e me estende o isqueiro para mais uma tragada. Você revive minhas dores, suscita meus afetos, me rouba o ar e quase mata minha alma de asfixia. Porra, eu não fui capaz de me reinventar o bastante para sustentar suas distópicas fantasias de ser você. E por deus, como eu tentei.

O ano vira, os barulhos lá fora me recobram a consciência de que me reinventei numa versão solitária de mim. Meus afetos ainda te contornam os dedos e eu não faço ideia em quais bolsos você me jogou. O ano vira e quem você virou, pequena?

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