O afeto é um velho sujo

O afeto é como uma pilha de louça delicadamente empilhada sobre uma toalha de seda. Um manto leve que suporta as bordas delicadas de algo que facilmente se quebra ou te corta.

Por deus, há tanto tempo você se fora. Largou a casa aberta e as roupas amassadas no canto da cama. Sequer levou suas malas, suas lembranças sórdidas me assombram e em alguns dias creio que amor é um velho sujo tentando me roubar a paz. Quase te esqueço, quase caminho leve entre os cômodos que um dia você habitara. Então sua presença me toma como um rompante. Seu rosto doce me sorri sombrio e seis pontos de abstinência afetiva me ferem feito uma lança cega.

Te quis como um querer absurdo e impetuoso. Te quis como quem quer ser salvo do resto do mundo patético. Mas esse velho sujo me traz a dor de saber que você caminhou, fez as malas, dormiu e acordou entre novos lares. Eu me mantive rastejando em suas memórias. Suas feridas ainda me ardem e tenho certeza que seu perfume ainda está impregnado no travesseiro. Besteira. Porra, isso é uma puta besteira, porque você afunda seu rosto em outros cabelos emaranhados, você deseja outro riso e corpo e alma como um dia desejara a mim. Você, de certo, rola e se enlaça em braços alheios num chão fresco enquanto eu me debruço nesse piso duro tentando absorver as memórias nossas. O seu entregar-se a outro corpo me perfurou o peito, me dilacerou a alma, seu timbre ressoou e a memória do seu riso doce me marcou a pele como uma tatuagem. As palavras que você nunca me disse são silabicamente pronunciadas para alguém que não eu. Sórdida e pausadamente repetidas. Não sou eu que as ouço. Porra, eu poderia ter sido mais, você ter sido mais. Termos sido nós.

Mas tropeçamos e você se foi. Fiquei com as saudades e um nó na garganta. Você agora recosta a cabeça eu outro peito acolhedor. O afeto é mesmo um velho sujo puxando a toalha, os copos se quebraram e meus dedos ainda sangram.

Nenhum fantasma adormece nessa noite

Nessa noite todo os cigarros estão apagados, todos os copos vazios e nenhum timbre ecoa para afagar meu peito insonso. Existe um sem fim de vidraças sob meus pés e a vida se estilhaçou como um raio ríspido que atravessa um espelho ao se quebrar. Hoje eu recobri o chão com mil pedaços mortos. Hoje eu escorri entre meus dedos, desmanchei diante minha fragilidade, hoje eu sucumbi ao inferno de ser exatamente isso que eu sou.

A tristeza é um manto denso que me recobre. Uma blusa larga demais que me veste e me sufoca. O silêncio é como um quadro azul que parece ser calmo, mas pincela o abandono entre os tons insalubres e vazios e melancólicos e. Vejo o medo da solidão delineada em cada tracejo desse inebriante fantasia de liberdade. O afastamento é uma capa protetora que me esconde do mundo, assim eu guardo minha dor e incapacidade dos olhos alheios. Morro do meu próprio julgamento. Nesses últimos sete anos, minha blusa foi crescendo, alargando, cabem mais cinco de mim aqui. Nesses tempos turbulentos, ela vai absorvendo meu medo e angústia. Ficou pesada, quase não consigo mais carregá-la. Acho que por isso ando tão cansada, presa nessa cama suja. Minha blusa escora as mangas no chão frio. Por deus, como eu queria cortar essas mangas.

Hoje mais um dia se passou e eu não faço ideia da onde estive. Não, besteira. Fisicamente estive aqui, há dias venho estando aqui, exatamente aqui. Com o mesmo pijama manchado há uns 3 ou 4 dias. Talvez mais. Olhei no relógio, foram três voltas até que eu tivesse forças de mudar minha posição no sofá. Queria tanto um café bonito, daqueles que a gente tira foto, mas meu choro doído me impede de sair de casa. As portas entreabertas me enclausuram cada dia mais em mim. Me pergunto quantas coisas eu cumpri nesses últimos dois anos e 3 pedaços meus se estilhaçam ao chão enquanto tenho tomado mais remédios do que café.

Minha pele branca e fina e fria. Meu toque toca seis tons de feridas e nenhuma delas mais me faz sentir. Mesmo quando a dor é ardida, queima, corta e sangra, mesmo quando respinga desespero, são poucos segundo que me relembram que ainda sinto. Às vezes as linhas tortas são um caminho bizarro para lembrar que algo ainda pode cicatrizar na gente. E quando cessam a dor da carne, é bom pensar que algo ainda cura em nós. A dor acaba por fora, ainda que a caos seja um berro agudo e constante que me fere os ouvidos.

O espelho é uma mancha cruel. Um plano ubíquo e sórdido que reflete um desabitar. Quando me posiciono em frente a mim, admiro a linha curva que se exalta sob minha pele. Gosto de contar e contornar os caminhos visíveis dos meus ossos e mesmo quando a consciência me lembra que estou arriscando caminhar de olhos vendados no parapeito do décimo andar, eu tenho um prazer repugnante de pesar um número a menos.

Quando eu varro a casa, encontro pedaços de minhas tenras memórias de dias amenos. Quase volto a crer numa calmaria definitiva. Quando me olho em retratos esquecidos, quase não me reconheço sem essa blusa maldita, mas meu peito se enrola num apelo sôfrego, uma súplica amarga me sobe à garganta. Deve ser isso que chamam de fé ou esperança, ainda que quase não reste mais nada sóbrio nesse meu sujo eu. Estou caminhando com sapatos furados e cadarços soltos. Estou pisando em meus pedaços e eles me perfuram os pés. Estou ajoelhada no chão e não sei se deus ainda acredita em mim. Tudo bem, repito comigo, tudo bem, eu também não acredito mais em mim. Mas eu continuo enquanto meus passos trêmulos me sustentarem, continuo enquanto o caos não me ensurdecer, enquanto houver pedaços manchados de papel. Eu persisto em mais um relato amargo enquanto eu ainda estiver caminhando no décimo andar.

À deriva

Tirei o telefone do gancho só pela certeza de que ainda funcionava. Tudo anda quieto demais e as ausências estão me matando. Sim, ainda funciona. Há dias uma penumbra solitária recobre a casa e o corpo meu. Há tempos minha alma gotejou as últimas palavras compartilhadas, os últimos afagos. Nunca um abismo sórdido me foi tão intenso e avassalador. Derramei minhas esperanças.

Pensei em te ligar, mas que tolice, sequer sei o número teu. Pensei em ligar para qualquer afeto passado, corpo que me foi repouso ou essência que um dia me deu amparo. Não restou ninguém. Digo, sei que ir embora não é um destino carrasco, é uma invariável. Todos se vão e traçam seus caminhos vezes acompanhados, vezes não. Mas nesses anos arrastados e sôfregos, tenho acumulado despedidas que me arrancaram pedaços, cavaram um buraco fundo em meu peito.

Revirei minha mente em busca de alguém para ouvir qualquer bobagem dessa virada de ano, desses fogos barulhentos, dessas esperanças despedaçadas que se revigoram nas passagens de ano. Não me veio ninguém. Por deus, eis o primeiro dia do ano regado a abandono. Odeio recomeços e suas austeras necessidades de demonstrar segurança. Sei, porra, eu sei que é apenas um recomeço simbólico, uma contagem de tempo rompidas por comemorações e que, no final, é tudo uma contínua vivência de dores e desamores. Mas é como um primeiro dia no emprego novo, seu sorriso amarelo e o estômago embrulhado. É como a ansiedade de não saber ao certo qual rumo as coisas estão tomando, nem como se portar. Ah, que besteira, nunca soube porra nenhuma da minha vida. Fui remando sempre as cegas fingindo saber exatamente para onde ir, mas tudo que sempre soube é que tenho um medo danado de estar remando num barco furado, à deriva de minha própria incapacidade de ser.

Se eu ao menos soubesse.

Tirei boas cartas durante esses anos. Não sei se por sorte ou competência, quem sabe uma mistura tenra dessas duas sacadas inerentes ao ser humano. A grande falência da minha vida foi tirar boas cartas de jogos diferentes. Dedicação, boas pessoas, admiração, um pouco de sorte na carreira. Cartas certas nos jogos errados, no final eu perco tudo. Sempre esperando alguém me salvar. Mas ninguém vem, não é mesmo? Se teve um jogo que nunca tirei boas cartas foi em minha própria salvação. Sempre à beira do precipício, sempre vulnerável nas minhas incertezas, esperando que o próximo irá remar comigo e me salvar. Eu nunca aprendi a partir, me concentrei em ficar parada, inerte, incólume num ponto morto pois acreditei que seria mais fácil ser encontrada se eu me movesse menos.

O relógio deu três voltas enquanto eu chorava, mas eu parei de olhar para ele. Tentei me afogar em minhas lágrimas para que a dor parasse. Ou para que, enfim, ela saísse, expurgada, entre esse choro que não cessa. Pensei em todos os corpos e almas que me habitaram, seus risos que me asseguravam salvação, seus olhos confiantes, suas habilidades de vida. Todos que me despertaram afeto talvez por possuírem essas singulares habilidades que por falta delas, me impedem de viver. De repente amei-os de volta num fulgor extenuante. Senti como se ainda hoje tivesse me emaranhado entre seus corpos. Todos estampam uma vívida satisfação em existir, como se soubessem algo que eu não sei. Como se possuíssem uma bússola e um remo seguro. Por deus, me confesso que, apesar de ter havido dias que jurei poder morrer da falta da reciprocidade de meus amores, nunca me senti capaz de sustentar o remo junto deles. Tão mais sóbrios, tão mais valentes, tão mais humanos do que eu. Confesso que mesmo almejando que ficassem para me salvar, pois enfim me sentia alguém perto de suas auras humanas, nunca fui capaz de deixá-los compartilhar meu barco incerto. Como se a presença de alguém que me ame estanque o furo do barco, mas me jogue de vez pro fundo do mar.

Tentei ligar para alguém me salvar ou me ouvir. Sequer sei mais em qual choro dolorido o relógio parou de dar voltas. O telefone não tocou.