À deriva

Tirei o telefone do gancho só pela certeza de que ainda funcionava. Tudo anda quieto demais e as ausências estão me matando. Sim, ainda funciona. Há dias uma penumbra solitária recobre a casa e o corpo meu. Há tempos minha alma gotejou as últimas palavras compartilhadas, os últimos afagos. Nunca um abismo sórdido me foi tão intenso e avassalador. Derramei minhas esperanças.

Pensei em te ligar, mas que tolice, sequer sei o número teu. Pensei em ligar para qualquer afeto passado, corpo que me foi repouso ou essência que um dia me deu amparo. Não restou ninguém. Digo, sei que ir embora não é um destino carrasco, é uma invariável. Todos se vão e traçam seus caminhos vezes acompanhados, vezes não. Mas nesses anos arrastados e sôfregos, tenho acumulado despedidas que me arrancaram pedaços, cavaram um buraco fundo em meu peito.

Revirei minha mente em busca de alguém para ouvir qualquer bobagem dessa virada de ano, desses fogos barulhentos, dessas esperanças despedaçadas que se revigoram nas passagens de ano. Não me veio ninguém. Por deus, eis o primeiro dia do ano regado a abandono. Odeio recomeços e suas austeras necessidades de demonstrar segurança. Sei, porra, eu sei que é apenas um recomeço simbólico, uma contagem de tempo rompidas por comemorações e que, no final, é tudo uma contínua vivência de dores e desamores. Mas é como um primeiro dia no emprego novo, seu sorriso amarelo e o estômago embrulhado. É como a ansiedade de não saber ao certo qual rumo as coisas estão tomando, nem como se portar. Ah, que besteira, nunca soube porra nenhuma da minha vida. Fui remando sempre as cegas fingindo saber exatamente para onde ir, mas tudo que sempre soube é que tenho um medo danado de estar remando num barco furado, à deriva de minha própria incapacidade de ser.

Se eu ao menos soubesse.

Tirei boas cartas durante esses anos. Não sei se por sorte ou competência, quem sabe uma mistura tenra dessas duas sacadas inerentes ao ser humano. A grande falência da minha vida foi tirar boas cartas de jogos diferentes. Dedicação, boas pessoas, admiração, um pouco de sorte na carreira. Cartas certas nos jogos errados, no final eu perco tudo. Sempre esperando alguém me salvar. Mas ninguém vem, não é mesmo? Se teve um jogo que nunca tirei boas cartas foi em minha própria salvação. Sempre à beira do precipício, sempre vulnerável nas minhas incertezas, esperando que o próximo irá remar comigo e me salvar. Eu nunca aprendi a partir, me concentrei em ficar parada, inerte, incólume num ponto morto pois acreditei que seria mais fácil ser encontrada se eu me movesse menos.

O relógio deu três voltas enquanto eu chorava, mas eu parei de olhar para ele. Tentei me afogar em minhas lágrimas para que a dor parasse. Ou para que, enfim, ela saísse, expurgada, entre esse choro que não cessa. Pensei em todos os corpos e almas que me habitaram, seus risos que me asseguravam salvação, seus olhos confiantes, suas habilidades de vida. Todos que me despertaram afeto talvez por possuírem essas singulares habilidades que por falta delas, me impedem de viver. De repente amei-os de volta num fulgor extenuante. Senti como se ainda hoje tivesse me emaranhado entre seus corpos. Todos estampam uma vívida satisfação em existir, como se soubessem algo que eu não sei. Como se possuíssem uma bússola e um remo seguro. Por deus, me confesso que, apesar de ter havido dias que jurei poder morrer da falta da reciprocidade de meus amores, nunca me senti capaz de sustentar o remo junto deles. Tão mais sóbrios, tão mais valentes, tão mais humanos do que eu. Confesso que mesmo almejando que ficassem para me salvar, pois enfim me sentia alguém perto de suas auras humanas, nunca fui capaz de deixá-los compartilhar meu barco incerto. Como se a presença de alguém que me ame estanque o furo do barco, mas me jogue de vez pro fundo do mar.

Tentei ligar para alguém me salvar ou me ouvir. Sequer sei mais em qual choro dolorido o relógio parou de dar voltas. O telefone não tocou.

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