Nenhum fantasma adormece nessa noite

Nessa noite todo os cigarros estão apagados, todos os copos vazios e nenhum timbre ecoa para afagar meu peito insonso. Existe um sem fim de vidraças sob meus pés e a vida se estilhaçou como um raio ríspido que atravessa um espelho ao se quebrar. Hoje eu recobri o chão com mil pedaços mortos. Hoje eu escorri entre meus dedos, desmanchei diante minha fragilidade, hoje eu sucumbi ao inferno de ser exatamente isso que eu sou.

A tristeza é um manto denso que me recobre. Uma blusa larga demais que me veste e me sufoca. O silêncio é como um quadro azul que parece ser calmo, mas pincela o abandono entre os tons insalubres e vazios e melancólicos e. Vejo o medo da solidão delineada em cada tracejo desse inebriante fantasia de liberdade. O afastamento é uma capa protetora que me esconde do mundo, assim eu guardo minha dor e incapacidade dos olhos alheios. Morro do meu próprio julgamento. Nesses últimos sete anos, minha blusa foi crescendo, alargando, cabem mais cinco de mim aqui. Nesses tempos turbulentos, ela vai absorvendo meu medo e angústia. Ficou pesada, quase não consigo mais carregá-la. Acho que por isso ando tão cansada, presa nessa cama suja. Minha blusa escora as mangas no chão frio. Por deus, como eu queria cortar essas mangas.

Hoje mais um dia se passou e eu não faço ideia da onde estive. Não, besteira. Fisicamente estive aqui, há dias venho estando aqui, exatamente aqui. Com o mesmo pijama manchado há uns 3 ou 4 dias. Talvez mais. Olhei no relógio, foram três voltas até que eu tivesse forças de mudar minha posição no sofá. Queria tanto um café bonito, daqueles que a gente tira foto, mas meu choro doído me impede de sair de casa. As portas entreabertas me enclausuram cada dia mais em mim. Me pergunto quantas coisas eu cumpri nesses últimos dois anos e 3 pedaços meus se estilhaçam ao chão enquanto tenho tomado mais remédios do que café.

Minha pele branca e fina e fria. Meu toque toca seis tons de feridas e nenhuma delas mais me faz sentir. Mesmo quando a dor é ardida, queima, corta e sangra, mesmo quando respinga desespero, são poucos segundo que me relembram que ainda sinto. Às vezes as linhas tortas são um caminho bizarro para lembrar que algo ainda pode cicatrizar na gente. E quando cessam a dor da carne, é bom pensar que algo ainda cura em nós. A dor acaba por fora, ainda que a caos seja um berro agudo e constante que me fere os ouvidos.

O espelho é uma mancha cruel. Um plano ubíquo e sórdido que reflete um desabitar. Quando me posiciono em frente a mim, admiro a linha curva que se exalta sob minha pele. Gosto de contar e contornar os caminhos visíveis dos meus ossos e mesmo quando a consciência me lembra que estou arriscando caminhar de olhos vendados no parapeito do décimo andar, eu tenho um prazer repugnante de pesar um número a menos.

Quando eu varro a casa, encontro pedaços de minhas tenras memórias de dias amenos. Quase volto a crer numa calmaria definitiva. Quando me olho em retratos esquecidos, quase não me reconheço sem essa blusa maldita, mas meu peito se enrola num apelo sôfrego, uma súplica amarga me sobe à garganta. Deve ser isso que chamam de fé ou esperança, ainda que quase não reste mais nada sóbrio nesse meu sujo eu. Estou caminhando com sapatos furados e cadarços soltos. Estou pisando em meus pedaços e eles me perfuram os pés. Estou ajoelhada no chão e não sei se deus ainda acredita em mim. Tudo bem, repito comigo, tudo bem, eu também não acredito mais em mim. Mas eu continuo enquanto meus passos trêmulos me sustentarem, continuo enquanto o caos não me ensurdecer, enquanto houver pedaços manchados de papel. Eu persisto em mais um relato amargo enquanto eu ainda estiver caminhando no décimo andar.

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