As ruas que me levam de mim

Tem dias que dá uma puta vontade fugir de casa. Não me olhe com essa cara julgadora, você já deve ter querido se mandar também, vagar por ruas sem fim, sem atender o telefone já que ele fora deixado no ex-lar. Dias novos e vibrantes e silenciosos, já que nenhuma notícia é enviada aos familiares ou amigos. Nenhuma notícia recebida também. Será que estão bem? Será que deram comida ao cachorro? A porta, puta que pariu, a diarista sempre deixa a porra da lavanderia aberta, vai alagar tudo se chover. Será que alguém já notou que fugi de casa? Vai que ninguém se deu conta. Não, por deus, o chefe já deve ter notado que a pilha de papel aumenta em minha mesa, de certo anota minhas faltas num caderno preto, já que o ponto eletrônico não funciona há dias. Vai gastar as folhas todas anotando minhas faltas, deve achar que vai se gabar ao me avisar sobre os descontos em meu salário. Se é que pode se chamar de salário aquela merda que me banca a sobrevivência. Sobrevivência?

A gente vai resistindo dia após dia. Nessas porras de empregos fodidos, entre corpos que mal notam a nossa presença ou, ainda pior, a nossa ausência. Ah, menina, esses seus olhos risonhos ainda que tristes. Na verdade acabo de me dar conta de que você não sabe mesmo do que falo. Você nunca quis fugir do lar, pois entre seus cômodos e quartos habitados, você divide o dia com outras almas. Só há de querer fugir de casa quem mora só.

Não ria. Porra, não ria de mim. Deixe-me explicar. Verá que a lógica habita cada poro meu nesse instante, minha consciência está plena, nunca estive tão sóbria, juro!

Veja, menina, quem divide os lares foge de casa pela presença alheia. Pelo inferno dos outros. É fácil fugir do caos divido, mas também é falso. Bastam algumas quadras para que haja medo e receio e dor do abandono. Bastam 3 quadras para que você titubeie em continuar, seu telefone toque e seu peito berre num desespero isolado e amargo. Mas se decide continuar, você abandona seus fantasmas no lar, seu caos no lar. Você foge e não volta.

Se mora só, seus fantasmas fogem antes de você. E fogem junto. Digo que não há, de um forma justa, como fugir, mas também não há como permanecer em casa. As janelas e portas incitam a fuga. O vazio e o silêncio convidam a correr pra longe de tudo que te lembra ser você. Quando se mora só, a solidão te recobre nos dias frios e quentes, te enlaça os dedos e corrói sua carne. Se fizesse um exame de sangue, seriam seus monstros sórdidos que se revelariam.

Você bate a porta e venda os olhos, corre metros cegos até o coração disparar e o ar parecer insuficiente. Você corre no escuro para que não haja como retomar o caminho. Quando se foge de uma casa vazia, você espera deixar suas memórias e vidas e caos lá dentro. Mas feito uma queimadura de cigarro, as marcas te acompanham, os bolsos pesam e o silêncio atravessa os ouvidos feito uma lança cega. Já viu uma lança quase sem ponta atravessando alguma coisa? Nem digo para que imagine um corpo sendo atravessado, pois seria um tanto desagradável é não quero causar constrangimentos. O caos dos dias emudecidos pode ser uma tragédia programada matando aos poucos.

Quando você vive só, fugir de casa é uma tarefa árdua, pois a moradia é sua alma. E te pergunto num tom seco feito um vinho indigesto, como é que se foge de si mesmo?

 

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