O que sobrou do fim

Mesmo quando fecho os olhos eles continuam abertos. Olhando para mim cada vez mais fundo. Mesmo quando eu ligo o rádio, a casa continua muda, num inquietante vazio. Mentira, não é vazio. Desde que você se fora, nada tem sido vazio em casa ou em mim. São seus toques sentidos em cada canto mal iluminado desta casa, são seus toques me tocando a décima incandescência de uma alma que mal sei possuir. São seus olhos densos, tenros, afáveis que tento, fracassadamente, me esquivar. São seus olhos que me olham e misturam todos os sentimentos incabíveis em um só ato. Mas em ti cabem. Por deus, caminho entre os cômodos e é seu perfume que ocupa os corredores, impregnado nas paredes, é a porra do seu cheiro que me toma feito uma quimera, feito um soco seco no estômago é o seu perfume que me contorna o corpo feito um afago árduo. E mesmo quando tudo é quieto, frio e calmo, é sua ausência que transborda nesse meu peito estilhaçado ao chão. Porque você se fora há dias, levara suas malas e minha paz. Levara a calmaria dos dias bons, a brasa vívida dos cigarros provocantes, levara os três toques de afeto que bordei nas paredes de meu cerne. Só deus sabe o quanto desejei, nesses últimos dias, que tivesse também levado sua presença dessa casa, suas lembranças dessa minha sórdida sobrevivência. Limpei a casa, apaguei suas memórias dos quartos e esvaziei o cinzeiro, mas a porra da sua ausência sobrevive e emerge, reascende feito a brasa de quem traga um bom cigarro quase apagado. Quase. Antes tivesse levado as saudades também. Tivesse levado o denso rastro sujo que deixara em mim, um afeto mal terminado, mal digerido, pois suas palavras me engasgam mais do que sua partida. Você é todo ausências em mim, faltaram-lhe as despedidas, sobram-me suas lembranças. O seu não-estar me sufoca, me mata em seis tons mudos e eu sequer sei o que fazer com um espaço que está lotado de ausência. Antes, por deus, antes tivesse levado as malas e as pétalas que caem ridiculamente doces à mesa. Antes tivesse levado os espaços ocos e os timbres de suas palavras mal pronunciadas, mal ditas. Suas malditas palavras. Antes, só antes, tivesse me levado.

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