Flores mortas

Feito uma flor se despetalando num ritmo lento e dolorido. Esses tempos têm sido uma flâmula de dores e lamúrias. Feito essa maldita flor que repousa na janela e, dia após dia, continua derrubando pétalas secas. Mas que, ao invés de dar fim à sua inexistência – pois sim, essa pobre coitada sequer existe, sobrevive permeada pela neblina mórbida do inexistir -, ela continua fazer florescer, fazer renascer mais uma pétala quase sem cor, sem vida. Renasce cada vez mais seca e frágil só para que, logo em seguida, sua nova folha se desprenda e paire frágil feito os sentimentos humanos, porém com muito mais dignidade do que qualquer corpo desalmado que vaga nesse mundo perturbado.

Eu me escoro entre paredes e sofás. Eu passo os dias olhando a resistência dessa burra flor que insiste em reviver ainda que, em uma morte perene, ela nem mais exista. Feito um ardiloso desafeto, eu a observo nascer e morrer em seis tons de morte. Eu observo um esforço inócuo, podre, um arfar mais denso que apenas um velho no leito de morte poderia experimentar. Mas a persistência é uma pétala maldita se soltando da vida sem nunca morrer. E, por deus, ainda que eu costure com linhas de afeto essas folhas secas, tudo que sou capaz é fazer meus dedos sangrarem, meus olhos arderem, tudo que posso é ver a morte escorrer entre minhas mãos.

Retorno depois de três dias e oito mortes bordadas em minha aura insólita e essa maldita flor continua despetalando-se em minha janela. Por mais que eu limpe o parapeito da janela, por mais que eu me esgueire de sua viçosa aparência, por mais que seu caule quase prostrado no vidro sujo aparente um fenecer iminente, alguma coisa permanece, alguma coisa agoniza e ressurge, alguma porra de força biológica, cósmica, sobrenatural ou afetiva culmina um reviver nessa flor falida existencialmente, mas que resiste sordidamente, quase distendida entre suas pétalas secas e murchas e sem perfume.

Retorno depois de dois invernos, três manhãs de sol. Nem minhas tentativas de arrancar-lhe a vida são capazes de cercear essa lúgubre vitalidade que pulsa, ainda que frágil, entre a raiz e seu caule torto. Ainda que eu exagere na água e, logo em seguida, a mate de sede, ainda que eu a prive do sol e superaqueça a terra, há uma maldita resistência pulsante e latente e voraz dessa porra de flor inexistente. Vejo a morte se instalar ao lado meu para observar a resistência de quem ressurge. Observamos juntas, a morte e eu, a inexistência da vida.

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2 comentários sobre “Flores mortas

  1. Por isso tenho apenas plantas sem flores. Mas continuo as amando. Sabe, eu venho enfrentando um momento horrível de depressão, por mais que odeio admitir que seja depressão e ansiedade. Enfim, eu comecei a mexer com plantas, criar plantas em vasos mesmo. Uma terapia. Abraços.

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