Falamos sobre o caos e a paz, a remissão, a regressão e o ímpeto avassalador de emitir qualquer fala tola e sem sentido. Falamos da luz que se acende e, trêmula, demora a se firmar na fina fibra da lâmpada. Falamos do mal, do mar, do medo de amar. Dos dias quietos e, também, falamos em dias mudos. Palavras novas, velhas, suas, minhas palavras. Um dicionário inteiro não sustentaria nossas falas de afeto. Falamos do amor estendido aos nossos pés e dos pés descalços no compromisso de não não ter nada além de uma velha teimosia em expressar uma aura doce. Falamos o que se expõe em público, e tudo aquilo que se resguarda no mais secreto vazio d’alma. Falamos em dia e dias e dia e, por fim, falamos à noite. Da noite. Das tardes amenas, d chuva, da televisão que animadamente não emite nenhum som. Abafamos os versos. Meus tons mudos, seus timbres roucos, sua voz recobrindo o chão do meu afeto. Meu abraço enlaça suas palavras e me sustento em suas rimas leves, leves. Mesmo que não rimem, que não combinem em tons sonoros, seu timbre cambaleia entre um tilintar tênue. Falamos em línguas que não há de se compreender e nenhuma compreensão fugiu ao nosso entendimento. Não precisaria entender mais nada mesmo. Por fim, falamos em tons baixos, sussurros calmos, estendendo as sílabas e, enfim, calamos. E mesmo quando o assunto pareceu esgotar-se, o que era necessário permaneceu dito entre um fim que não vem.

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