Uma mancha tua em mim

Sua blusa caiu do meu guarda-roupas. Em meio a tantas blusas minhas, sua camiseta branca e esquecida destoava de todas as outras peças. Em meio aos perfumes meus, o seu ainda exalava saudades. Porra, há meses que tu esquecera essa camiseta aqui. Mentira, esquecera não, deixara incólume e sem pretensão de buscá-la.

Segurei por cinco minutos ou mais esse tecido branco entre os dedos, segurei o que restou de ti nessa casa, nessa alma. Agarrei a peça como quem tenta, desesperadamente, se manter acima da linha d’água, ainda que morrendo asfixiada pelo vazio e pelo excesso. Mesmo que os calendários me digam que sua última vinda fora há mais tempo do que qualquer agenda ou coração amável é capaz de registrar, eu insisto em deixar essa peça tão mais branca do que minha tez guardada. Não como uma pretensão de que você volte para buscar, mas como um objeto doce que carregou o corpo teu. Eu, porra, eu carreguei o corpo teu, a alma tua, a essência toda.

E se eu te ligasse agora seria para dizer que as despedidas são processos da vida. Não é uma finalização sofrida, é uma constante, uma invariável: a partida é o passo final do abandono humano. Em sua partido eu cai seis vezes ao chão e me despedacei em todas elas. Um fragmento eterno de mim e meus olhos chorosos de quem não sabe ao certo se possui a força de se juntar. E se possuo essa força, por deus, não sei se quero. Me espalhei em cem pedaços áridos, torpes e repousei em minha dor.

Mas o que me dói, porra, o que mais me fere é essa mancha imensa bem no peito da sua camisa branca. Essa tinta borrada de desafeto que me lembra sua despretensão afetuosa. Você foi embora e deixou tudo aqui, suas camisas e suas lembranças. O que dói nessa porra de partida é que você não me levou em seus bolsos e nem em suas memórias. Como um desvaler do meu eu, como alguém que deixa as malas e toda a história num canto qualquer, sem o desejo de lembrar, sem a vontade de sentir de novo. Por deus, ainda que me doa, que me fira feito a morte, ainda que sua partida me suje feito um corte incurável, um fenecer exponencial sem nunca de fato me matar, eu me apego às vívidas rotinas que foram nossas. Eu me guardo em três tons de afeto e cuido, com os olhos atentos, para que elas sejam sempre doces. E você, sem o tom ressoante de alguém que amou, partiu deixando o amor e o desamor aqui comigo. Partiu para não reviver e não lembrar e não querer lembrar de mais nada. De você, restou sua camisa branca e manchada de desafeto. De você restou tudo que eu guardo entre o tecido áspero do seu desamor. De você restou eu, e de mim restou o que?

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