O amargo do fim

Escrevi por dias sem fim sobre você. Sobre um corpo e alma – muito mais alma do que corpo – que ninguém conhecera. Eu, em minha incandescente vulnerabilidade, observei e absorvi seus tons, seus timbres, sua face valida de quem sustenta um existir que me foge à compreensão. Escrevi enquanto os dias eram claros e os desejos sóbrios. Escrevi enquanto o amor foi uma brisa amena, enquanto o calor era apenas o suficiente para aquecer o corpo. Escrevi enquanto as noites foram brandas, calmas e capazes de me sustentar em seu colo amargo. Fui escrevendo para, contraditoriamente, te manter e te esvair de mim. Como quem preenche um incômodo papel branco para que o vazio se cale. Para que o vazio me deixe respirar.

Mas quando os dias correram num ritmo de asfixia, quando as letras já não me bastaram mais, quando por fim minhas linhas se tornaram uma flâmula repetida à exaustão, idêntica e sordidamente soletrada em desafeto, eu te escrevi como um expurgo amedrontado. Te joguei em papéis brancos e rascunhos manchados de café. Te delineei em traços apertados de uma torpe escrita. Por deus, fechei meus olhos sete vezes e sua presença vívida e pulsante em mim quase me permitiu te tocar.

Me debrucei em pilhas de folhas, em telefones mudos, em bebidas amargas. Me esforcei em suas memórias sujas, seus discos velhos, sua estadia sepulcrada nessa casa. Acumulei pilhas de folhas amassadas porque tudo que saiu de mim foram retratos seus, memórias de uma alma que julgava ser sua, mas que tolice! Não foi você, nunca foi você. Entre falas soltas e promessas que só eu me fiz crer, entre seus olhos esgueirando-se do afeto, entre o riso tracejado e a facilidade de rir em uma fuga sem palavras, eu construí um você que eu mesma não poderia suportar. Te fiz em dias bons, companhias plenas e palavras doces. Te fiz num imaginar que não caberia em ti, por isso te escrevi, desenhei e bordei. Tentei, com as forças que tão somente eu sei ser capaz, te fixar na pele, na alma, nas paredes do meu afeto. Tentei também me costurar na parede de seu cerne. Na tez mais limpa do seu bem-querer. Mas você não quis. Nenhum espaço oco foi ocupado por mim. Restei com um você escrito por mim.

Por 30 dias te repeti, incansável, nessa porra de caderno vazio. De novo. De novo. Te rabisquei para ver se você cairia nas folhas através dos dedos meus. Escrevi até as mãos doerem, a caneta tremer, os copos repousarem vazios ao meu lado. Escrevi repetidamente até que a lembrança dos olhos seus escorresse pelos meus pulsos, manchasse o papel. Escrevi até meu peito acelerado rasgar minha pele, sucumbir ao devaneio, expelir o abismo de insensatez que fui mantendo em mim.

Adormeci e estremeci incontáveis vezes sobre esses papéis sórdidos. Vomitei 30 palavras e todas me olhavam com a lúgubre insanidade dos olhos teus. Dormi dois dias no sofá e o tino desafetuoso me despertou com uma ressaca do não-amor. Prendi a respiração três vezes só para sentir a asfixia de qualquer outra coisa além da sua. Morri em feridas cruas na pele minha só para lembrar que outra coisa ainda me doía, me fazia sentir.

Pareceu que não acabaria nunca. Pareceu que todo o meu eu se despejava nesses papéis amargos e sobrava cada vez mais de ti entranhado em mim. Pareceu que o seu peso era incomensurável e que meus joelhos tortos não poderiam ou não saberiam mais sustentar tanto de ti em mim. Sua presença era tamanha que até meus vinhos doces pareciam não mais tão doces a ponto de nos satisfazer – sim, pois você era tão pertencente e vívido que era preciso te alimentar também. E quando não suportei mais o gosto do seu paladar, você se sustentou de mim. Morri um sem fim de vezes até, por fim, morrer em ti. Escrevi linhas finais até que de fato uma acabou.

Depois da ressaca, o vazio em mim foi como um metal pesado caindo em uma sala oca. Depois de piscar três vezes, seus olhos não me findaram com lanças de desafeto. Depois de páginas rasuradas, você rasgou meu peito e partiu, sobrou uma linha para escrever sobre o eco do meu fenecer explícito.

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