Quarto amarelo

Era como se eu, em meu processo de descoberta da dimensão da vida, tivesse me sentado em um quarto calmo e sóbrio. Um lugar que me suscitou curiosidade e um sem fim de descobertas além das paredes decoradas. Um ambiente que me acolheu sem receio, mas também sem fulgor. Sem muito significado ou sobrepujando qualquer busca de sentido no que eu estava fazendo, me acomodei bem no meio daquele cômodo inquietante ainda que absolutamente reconfortante. No começo era apenas como me situar num espaço colorido e ainda desconhecido da minha própria casa.

Os dias passaram e o conforto da estabilidade me abraçou. Os dias correram e ficou cada vez mais fácil não me mover. Sentei no centro de um caos e o cenário parecia bastante calmo. Mas, veja, o quarto era um lugar seguro e tudo parecia ridiculamente afável ali dentro. Nos dias primeiros, tudo que fiz foi emergir de mim para mim, uma descoberta constante do que eu poderia ser. Olhei os detalhes, as pinturas perfeitas das paredes, os itens de decoração e olhei para mim. Me rabisquei em contornos delicados e expressões de vida. Me bordei no chão, no teto e absorvi aquele cômodo como quem se refugia em calmaria.

Tudo que fora um aconchego, aos poucos, tornara-se um triunfo do caótico habitar. Aquele espaço, que antes era tão acolhedor, tornara-se um reflexo perfeito de mim. Podia me ver em cada fina camada de tinta, em cada contorno da decoração, em cada peça torta e mal posicionada daquela contraposição entre o concreto e o subjetivo, entre quem sou e quem não me vejo ser.

Mas não quero que me entenda mal. Habitei por um sem fim de tempo esse quarto pois, no início, ele fora de um aconchego imenso, uma fuga de mim. Com o passar dos dias, adquiriu minha essência, meu âmago culminou numa decoração medonha. Com o tempo, de uma amenidade e sutileza, ele ganhara um aspecto estranho, afrontoso. Como um quarto todo amarelo, rígido e líquido ao mesmo tempo. Como um lugar que não me sustenta. Como um corpo insípido, vulgar, inerte prostrado na iminência de um eco sufocante. Um cômodo tecido de tamborilares sórdidos que, antes, era um tom sépia calmante, quase uma melodia. Agora é uma cor amarela aflitiva, extenuante. Um amarelo amargo.

Se os azuis rememoram uma tristeza absoluta e os vermelhos uma euforia incandescente, o amarelo em excesso é agonia apregoada no meio de sua garganta. E, por deus, eu sequer vi essa transição cromática. Um dia eu apenas reparei que as paredes escorriam um desfocar de cor que minhas pupilas já não sabiam ou não queriam ou, ainda, não queriam saber distinguir. Quase um debruçar-me despretensioso na existência oca de mim mesma. Pois nada mais existe em mim ou no quarto, ainda que ele seja inteiramente eu. Internamente meu.

E quando me dei conta de que, assim como as pessoas, os lugares também adoecem, comecei a notar janelas mal fechadas, maçanetas emperradas e rachaduras nos cantos. Quando dei por mim, não reconhecia mais como meu aquele quarto que tanto me foi repouso, sossego despretensioso. Sou eu esse ambiente mórbido e, ainda, esse ambiente sórdido é meu, o que me resta se, por fim, decido ir embora?

Contei 10 tons de amarelo e todos me sufocam. Contei 10 tons de meu fenecer estúpido, feito uma flor que morre seca por ser deixada à luz do sol ou morre fria no despetalar ambíguo de quem desfalece pra recomeçar sem nunca, de fato, morrer. Não sei como meu arfar resiste aqui dentro, mas acredito que os tons azuis soturnos são bem intensos do lado de fora.

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