Teus filmes e falas secas

Eu gosto da delicadeza rígida dos franceses. Lembro-me como se bastasse estender o braço para te tocar do dia em que me contou sobre a rispidez dos filmes franceses. “Já notou como, nos diálogos, ‘fere-me os ouvidos’ significa mandar calarem-se?” Você me perguntou sussurrante, numa pretensão de quem vela um segredo. Um tesouro seu e imensuravelmente valoroso. Dividira-o comigo e hoje me debruço na nostalgia de uma película francesa só para me recordar das frases tuas. O silêncio é um espaço valioso em que deixamos habitar muita gente capaz de mal cuidá-lo. Mas em lugar nenhum do mundo encontra-se uma significação tão verídica quanto a paz que nos é tomada ao partilharmos e nos estilhaçarmos em corpos e almas e vidas por aí. Fere-me os ouvidos. Não é, porra, nunca é o barulho aleatório que incomoda, não é a desorganização da rotina, a bagunça dos lençóis que desvirtua o ritmo diário. São nossos silêncios afáveis e solidão deliberada que ficam susceptíveis, tornam-se finas camadas cada vez mais feridas e fragmentadas e machucadas e destroçadas pelo comportamento alheio. É especificamente o timbre de quem fora amor, fora paz, aconchego. São os toques, agora mal quistos, o dedos incômodos, a respiração em tons altos demais. São nossos ouvidos sensíveis captando os cruéis tamborilares estridentes. São meus ouvidos feridos do ácido de suas palavras. São os sons da amargura atribuída ao desafeto que ferem as paredes da alma. Nunca são as portas batidas, as frases mal terminadas, não são as merdas dos objetos caídos ao chão. São suas mãos estabanadas, são seus lábios que se movem em ritmos de ojeriza. É todo o desperdiçar de vida que se culmina numa relação que mal se sustenta mais. Era você me falando como os franceses são cruéis em dizer que odeiam o som da sua voz sem emitir sequer  um timbre alto ou carregado de raiva. Nada sustenta mais o desprezo do que o tom morno e desinteressado ao anunciar que a simples estadia alheia fere seu corpo e alma. Se a presença machuca, nenhum amor sobrara. Nenhuma película francesa encanta. E eu? Eu que me lembro de seus lábios frios me contando como é triste o estilhaçar do afeto, quase te tomo de volta. Quase te recobro. Mas isso é muito pouco, um tracejo menor que nada, um tom a menos da sua voz ao me dizer que minha fala lhe feria os ouvidos. Uma linha abaixo do não existir.

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