Aos teus (meus) fins

O afeto nasce num diálogo ameno. Nasce num olhar tímido e num desvio calmo. Nasce naquele cigarro entre os dedos e uma risada sorrateira. O amor nasce no fulgro de não saber bem o que falar ou que fazer com as mãos soltas.

O amor meu nasceu entre o cruzar dos braços e a vontade imensa de jogá-los nos ombros teus.

Os tempos correm, os tempos urgentes são gente, porra, e a gente mal soube o que fazer com os dias e com o medo e com o desconhecido. Mas eles estiveram lá.

E o afeto cresceu, ganhou corpo, ganhou um espaço imenso em mim. Mas não é sobre o tempo bom que correu que quero falar. Já escrevi notas sem fim sobre esse Você que me sustentou os dias que, acredite, não guardo mágoas. Ora, não pense isso de mim, mal parece que conviveu comigo. Até essas frias paredes sabem que jamais seria capaz de reverberar qualquer desafeto por ti. Ainda que o inferno tenha se posto em minha vista uma centena de vezes após seu abandono, ainda que o sentimento vazio ocupou-me feito um vendaval insuportável, jamais ousaria substituir qualquer bom afeto por ti por um pensamento atroz ou iníquo.

Agora, porra, agora abro notas suas, ouço comentários tecidos em timbres esquálidos e, por algum motivo, imagino que coisas nem tão boas andam lhe ocorrendo. O que posso, por deus, o que posso te desejar senão uma imensa paz, uma sorte danada? É tudo que me resta, é tudo que atrevo-me a restar. Porra, passei momentos de caos incalculáveis depois de ti. Sua partida me feriu setes camadas da paz, da alma. Aliás, sua partida ainda me é uma ferida aberta. Uma cicatriz latente que por vezes ainda sangra. Sangrou hoje quando ouvi que, talvez, sua paz não esteja tão em paz, seus dias não soem tão azuis e amenos quanto eu imaginava que devessem soar.

Ahh, pequena, o amor é um diabo disfarçado de uma flor de bem-me-quer quando já arrancou toda a raiz desse caule frágil e dasalmado. Eu que tanto te desejo ainda. ainda que sem flor, sem pétala, se raiz alguma.

Mentira. Menina pequena, te venero, te amo, mas não te desejo. Você me é aquele desejo que almejo só, é tão somente, por não ser mais meu. Mas o amor perdura e quem dirá, quem saberá me dizer por quanto tempo? Há meses, repito num sôfrego desepero por quanto tempo você há de me habitar ainda?

As notícias vagas e inconsistentes suas me fazem crer que eu parti, sai de ti como quem afunda num bolsos pouco usado. Caí entre seus papéis e moedas, caí entre um bolso fundo demais pra ser resgatado. Virei lembrança, virei passagem. Mas e você? Você habita meu bolso mais raso, habita meus dedos, se entrelaça entre meus pulsos, me contorna os pulsos, sobe os braços, se instala no lado esquerdo do meu peito. Você não passa mesmo que toda a admiração tenha passado. Você não parte mesmo que tudo que me lembre de ti me reparta. Me tira. Me atinja feito uma uma lança cega que estilhaça meu peito e corroí minha paz. Você afogou meus dias e minhas noites. Você me fez sangrar em seis tons amargos e ainda assim a merda de seus olhos me olham afetuosos em minhas memórias.

Hoje, sei que seus dias andam cinzas, que seus tempos andam duros e me doeu mais do que minhas próprias cicatrizes. Ainda que saber que não mais sabes de mim não me impede de querer ser tudo que reverbera em ti, e me dói. O amor é um laço cruel que faz doer em um o que pouco importa ao outro. Amo-te ainda que sabendo que outro corpo e outra alma e outra essência toda cuidam de suas feridas.

Se pudesse saber, chorei com o peito ardido a notícia de que seus dias talvez não andem doces e bons e calmos como desejaria. Te desejo paz. Dias bons. Dias doces. Ainda que tudo que me diga que em ti habita outra aura, outro corpo, ainda que eu nem mais exista em sua memória, te rememoro quem deseja a paz. A paz. A paz.

Três vezes, pois meu afeto garante que tu merece. E se não merece, preserva em mim teus olhos saudosos de quem me fez crer em amor. Se não me amas, amo te por dois. Três. Dez. Uma vida e te amo, mesmo que ao lado teu não seja eu. Mesmo que em sua história eu já nem seja uma lembrança boa. Te desejo a paz e me desejo o fim dos vãos que a ausência tua causa. E, porra, me causa.

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