essa frágil e fodida alma que nada é

Escrevo na ânsia para que não leia. Mas deixo esses bilhetes espalhados pela casa.

Escrevo para sobreviver à essa merda toda enquanto o rádio toca alguma melodia que me arde o peito. Acendo um cigarro só pra ter algo seguro entre as mãos, perdi o mundo e vi meus dias escorrerem entre essa minha pele fria.

Leio cartas antigas e a dor caligrafada me acompanha até hoje. Será, por deus, será que você leu alguma dessas porcarias? Escrevi para sobreviver e são minhas próprias palavras que me matam.

Já tentou, pequena, externalizar sua dor? É um processo medonho, um estigma, um prego perfurado três vezes em seus olhos.

Acendo um cigarro para que algo amargo me traga à vida, já que a vida amarga me dilacera o peito. Posso tomar um banho? Posso adentrar seu chuveiro, corpo e alma como quem se refugia de si mesmo? Não posso mais suportar meu reflexo distorcido no espelho do banheiro. Meu existir distorcido, se é que existo.

Algum bom escritor já deve ter dito isso em um belo poema: viver é uma dor insuportável. Ou talvez algum velho sujo entre bares e garrafas vazias. Não importa.  Minha vida é feito uma flecha mirada no centro do meu peito e se eu a arranco, toda minha alma se esvai.

Talvez eu devesse ver um filme, tomar um remédio – tenho feito terapia, yoga e bebido chá. Tenho tomado meus remédio, tenho sustentado essa porra de ausência em mim. Tenho sido tudo que não sou e só me restam minhas letras tortas e rabiscadas rapidamente. Só me restou um corpo vazio e ninguém mais pode salvar.

Escrevo para que fique registrado a dor e angústia. Não que eu ache digno registrar afetos mal entregues. Mas preciso pra caralho tirar de mim o peso da renúncia, da negação de mim mesma. Preciso escrever cem cartas tristes para que alguém veja minha dor. E porra, tá doendo pra cacete. Tá me dilacerando, matando, rasgando minha pele de cima à baixo. Tá expondo tudo que não quero ou não posso ser. Estou debruçada no chão da minha própria existência e não sei me levantar.

Mas que fique nos registros escritos dessa vida fodida: eu tentei. Por Deus, eu tentei ser alguém capaz e afável e simpático. Eu tentei ver a humanidade com olhos humanos e se me restou algo de bom, foram minhas letras sujas.

Eu escrevi sobre filmes e poemas e amores e ódio e sexo e prédios altos. Eu escrevi sobre folhas caindo, sobre a beleza do anoitecer e o inferno de um novo dia. Escrevi sobre corpos suados de amor e almas fodidas de desafeto. Eu escrevi sobre a porra do silêncio que me mata e a ausência de mim que me consome. Eu escrevi cem cartas e queimei cada uma delas. Eu inventei um eu todo novo só para não precisar me ser. Inventei você, mesmo que todo o amor que eu caligrafei tenha sido uma externalização que não sou. Escrevi a porra do mundo todo e queimei com a brasa do cigarro.

Escrevo para os mal amados, os loucos, inconscientes, inconsequentes, para os fodidos emocionalmente, para os bêbados e os solitários. Escrevo para os que morrem de ausência e os que matam pelo silêncio. Eu escrevo 30 linhas tortas para os velhos rotos, as moças doces, para os machucados estampados em minha pele, escrevo pra morte que não veio e pra vida que não vingou. Escrevo para a alegria estonteante de quem sabe um segredo amargo sobre estar vivo, para os que creem na finalização divina e, também, aos que entregam suas almas a deuses e suas promessas de vida pós morte. Eu não, acho que sequer tive alma. Se a tive, corroeu-se em três camadas de uma ardência fodida. Escrevo aos que amam demais e a quem, assim como eu, admite o amor feito uma foice decepando cada membro do meu corpo. Escrevo aos filhos rebeldes, aos pais abusivos, aos amores que morreram antes mesmo de serem amor. Por fim, escrevo para salvar em mim essa porra de vida que eu não soube, e não quis saber, viver. Escrevo para salvar de mim a culpa de passar por esses dias como alguém que sentiu demais e feneceu em sua própria ação de ser. Não fui. Não posso ser. Se posso, não ouso pois ser precisa ir além do papel.

Escrevo para que você leia e me perdoe por não ser nada mais do que essa frágil e fodida alma que nada é.

o inferno é no décimo sétimo andar

Então é isso. No fim dos dias nublados e cinzas e pálidos, no fim dos tempos, resta-me somente a mim. No fim das contas sou eu lidando com o amontoado do que restou desse caos, desse devaneio ilógico e inexorável que sou.

Acendo um cigarro e sinto meu corpo pesar docemente. Depois o alívio, a paz, a consciência podre de que ainda me pertenço e, por deus, assim será. Já caiu do décimo sétimo andar, menina? Seu corpo é uma lâmina pulverizada no ar. Ninguém se importa com uma alma sendo, dia após dia, arremessada dos mais árduos abismos, mas um corpo choca. Um corpo caindo é feito uma renúncia ilegal dessa porra toda que a gente não quer ou não sabe viver.

Já amou hoje, pequena? Cem dias de solidão e reclusão e uma alma cada vez mais insigne emudecida em si mesma. Depois a euforia. O afeto transbordando pelos cantos relapsos da derme. O amor – que besteira! Como pode acreditar no amor se bastaram três esquinas mal iluminadas para que seus olhos sejam substituídos por um corpo que encaixa seus quadris com tamanha maestria em quem nunca te jurou amor? Como pode crer em afeto se você doaria sua alma, acolheria outras centenas de almas e corpos e bocas e mãos torpes e sórdidas se as esquinas da vida lhe permitissem?

Já olhou seus olhos hoje, pequena? Nos meus queima uma incessante necessidade de gritar. Um som mudo que me corrói a espinha dorsal, assume uma dor física, asfixia minha alma, se instala em minhas entranhas. Em meus olhos refletem-se cem portas trancadas de quem eu me recuso ser. Mas daria a paz que não tenho para abrir todas elas. Um demônio perfurando meus timbres com estacas do meu próprio ser. Se é que sou.

Meu corpo caiu do mais alto espectro da minha dor. Estatelado no meio da sua sala, da sua alma. Doeu menos do que meus últimos três dias de consciência. Minha essência sôfrega está há meses estilhaçada ao chão e ninguém sequer notou. Te amei até o ardor do sentimento cessar, te amei até o fim dos dias só para saber que os dias, por fim, acabariam. Agora sinto nada. Uma prévia de caos e meu corpo ocupa a rua.

Se eu tivesse a capacidade enfadonha de viver, eu me sentava entre a opulenta luz amarelada de uma esquina suja e te tragava a alma. Seu soubesse viver essas porras de dias sujos, eu trocava de dor, eu te tocava e te comia, engolia em pedaços de um amor fodido que me matou e ninguém viu. Mas continuaria morrendo de amor por tantos outros olhos cheios de pudor.

Se eu soubesse viver, eu secava essas lágrimas e te deitava em meus braços. Mas eu caí da janela enquanto você juntava suas roupas manchadas de um afeto alheio. Acendo um cigarro que resta em meu bolso, pois você me é um gosto amargo que não mais acende em mim. Ninguém liga pr’alma ferida nessa vida fodida.

Oito pétalas mortas, mas a nona resiste em mim feito alma

O amor me protege dos ventos frios, me cobre os olhos dos dias nublados. O amor me dá cor ao cinza, ao breu, me dá luz em meio ao caminho solitário. Me aquece as pontas dos dedos, percorre as veias e envolve meu peito num misto de agonia e bem-querer. O amor me faz parecer seguro estar em pé à beira do precipício sem medo de olhar para baixo.

O amor quando chega é um vento ameno em dias quentes e um casaco impermeável para as inseguranças do mundo. Mas a vida ainda é um continuar caminhando. E eu que cheguei aqui com o receio e a dor e os passos trôpegos de quem mal caminha e, por deus, se caminho, percorro sem direção, titubeio entre os passos frouxos que suspeito me levarem à sua direção.

Ainda que as ruas sejam calmas, ainda que os afetos venham embrulhados nessas esperanças sorrateiras de calmaria, por toda uma vida a estrada foi um despetalar de mal-me-quer. Então protejo esse caule, esse pólen quase sem flor, quase seco. Deixo que o amor me roube o ar, as vísceras. Deixo que me tire as roupas, a fala, que me desabroche o riso de modo a me deixar vulnerável, despida das roupas do âmago. Mas protejo entre meus dedos fracos e ainda gelados essa flor quase morta. Como quem protege o que restou d’alma. Como quem morreu oito vezes, mas guarda um resquício tenro dessa nona vida na petulante e audaciosa vontade de fazê-la viver, fazê-la segura. São oito pétalas mortas, secas e estraçalhadas que caíram ao chão frio da indiferença, mas a nona resiste em mim feito alma.

Meu cerne se espalhou em cem estilhaços afiados e minhas vísceras sucumbem aos meus passos meio tortos, meio arrastados. Mas a porra da nona parte que ainda vive em mim eu guardo. E se puder, por deus, se souber entender que admito pular sem medo do vigésimo andar contanto que me permitas debruçar-me em proteção sobre minha flor quase morta, eu aceito qualquer pedaço dessa loucura que chamam de afeto. Pois em mim tudo é vulnerável, mutável, tudo dói pra caralho, e essa nona pétala quase morta resiste como uma quem flanou à beira do abismo e olhou de volta para si mesmo. Eu colhi a flor fenecida e deixei-a ser essa quase morte dentro de mim. Agora sou essa última tonalidade torpe de flor. Sou o que restou e protejo-me para que assim, e tão somente assim, um dia alguém saiba me fazer reflorescer.

feridas

Eu não queria mais olhar para as pétalas caídas, nem para os vidros estilhaçados, nem para os cacos caídos em mil pedaços ao chão. Eu não queria olhar mais para mim, nem para você. Eu não queria sentir o peso de continuar aqui dentro, onde tudo é um caos, nem sentir o desapreço de deitar mais uma noite sendo vencida pelo meu inexistir.

O velho rádio toca uma melodia ardida, um ritmo que penetra em cada canto dessa sala maldita. Mas ainda é melhor do que o silêncio. Ainda é melhor do que o barulho alto da falta de afeto. Ainda é melhor do que o descompasso dos meus pedaços caindo ao chão.

Eu não posso mais te escrever boas vindas. Eu não sei mais te dizer amenidades. Eu não sei mais calar e, por deus, eu não posso mais te machucar, porque suas feridas me matam. Suas dores meu atingem feito uma lança cega bem no meio de meu peito. Mas se não te arranco de mim, morro em cem gotejares podres e sórdidos de desamor a mim. Se não te deixo cartas escritas à sangue, me traio, me desespero, me sufoco. E suas dores me matam e ferem, ainda que sua presença me asfixie. Seus olhos piscam para me ver mais límpida e eu só sei fenecer entre três lágrimas secas em minha pele.

Deitei no meio da sala, no chão frio, no caos interno. Deitei em suas palavras doces e atitudes egoístas, deitei em seu desamor disfarçado de bem-me-quer. Me acolhi entre a porra da sua necessidade de me machucar, me acolhi em suas mãos duras e olhos reprobatórios. Entre seu cabelo macio e juras de quem me protege mesmo que sem nunca, de fato, me assegurar calmaria. Me deitei em cem brasas acesas em seu existir podre. Deixei você, sendo brasa, me marcar a pele e a alma. Deixei você, sendo fogo, me ferir cada camada da derme. Deixei você perfurar minhas entranhas e costurar a tristeza em meu peito. Agora quero arrancar as costelas para ver se consigo salvar alguma coisa em mim. Agora sinto que um buraco flamejante me comendo a pele seria menos dolorido do que continuar a existir assim – quase que não existindo.

Me aconcheguei no fim das minhas forças. Na inexpressão da minha vibração. Deixei seus cacos de vidro sujos me perfurarem as primeiras camadas da pele, uma dor prolongada e ardida, mas que me faz sentir. Me faz sentir. Me faz sentir. Logo eu que, inexoravelmente, sentia o ópio, o regozijo, sentia a penúria do estar aqui ou sentia nada. Sentir a ferida do corpo me recobre mais uma noite e eu me aninho nesse buraco fúnebre de acordar entre seus desafetos.

Seus olhos dançam com meu caos

Sinto meus olhos pesados e a tristeza começa a recair como um manto áspero em meus ombros. Seus olhos dançam sobre meu corpo e parece tão límpido e reluzente entrelaçar meus dedos aos teus.

Por deus, como eu gostaria que o tempo parasse agora, que esse instante fosse um cem fim de vezes replicado. Como eu queria que existir não me eximisse tanto para que eu pudesse reviver esse sopro de vida mais vezes. E seu corpo dança feito corpo que sente e se sente. Então eu me apego aos seus olhos vageantes só para me fazer crer que talvez, e apenas talvez, me seja permitido flanar despretensiosamente por ai. Seus olhos me despem a dúvida, o medo, as roupas. Me despem de mim e quase creio que minha alma está, enfim, visível. Sua presença come minha face amedrontada, come meus pés tortos, come meus hediondos medos insonsos. Sua presença come minha rebeldia e meu medo do existir. Meu medo de mim.

Os dias me ferem feito uma lança cega. As horas me cobram uma existência perene que há de me fazer fenecer sem nunca, de fato, me matar. Morrendo pétala por pétala que cai ao chão, mas nunca de fato enfraquece a raiz. A tristeza é uma camada cada dia mais grossa que arranha minha derme pálida.

É pra você, minha menina, que te escrevo esses versos tristes, ainda que eu não os queira lidos e sentidos por ti. Te escrevo porque ao lado teu meu eu vibrou e a vida correu um tanto a mais em minhas entranhas. Despertou o desejo insigne de arfar um pouco mais fundo. Doeu pra caralho.

Acontece às vezes. Digo, meus dias cinzas são rompidos por uma felicidade repentina que de feliz não tem nada. É uma euforia melancólica e desesperada. É uma dor aguda e chorosa que invade a ponta dos meus dedos, entra pelas narinas, recobre os poros meus. Uma melodia incessante e repetida à exaustão bem ao fundo de meus ouvidos. Sabe quando o barulho é de tamanha persistência que parece entranhado em nós? Acostumamos com a tristeza assim como acostumamos com o caos incômodo de uma rua movimentada às 3 da manhã. Mas, repare bem, nunca acostumamos com o silêncio absoluto. Isso nos enlouquece, nos deixa sonsos, nos desajuíza. A paz não nos é permitida.

E você tinha um jeito doce de dançar que me fez querer estar ali, querer te olhar e, por deus, viver. Ainda que não ao lado teu, pois não me caberia a pretensão de seus ritmos avulsos. Mas viver. E que, de um modo meu meio torto, meio errado, mas persistente, quisesse continuar mais um tempo habitando esse meu eu incômodo. Descabido eu.

Menina, seu sorriso de soslaio, outrossim, seu riso rompante. Sua estadia que enche a sala e meu eu, enche o mundo todo dessa essência que me torna mais egoísta por te desejar para que assim, quem saiba, eu me deseje aqui também.

Você é aquele sopro doce que range baixo a porta na madrugada. Você é um estandarte que me trouxe pra mim e isso me fere manchando o chão com um sangue frio e vermelho mais veludo do que o seu batom. O pior dos sentimentos é esse equilíbrio astuto que me ousa manter em vida, ainda que nunca de fato vivida. Uma necessidade muda de manter-me inerte e duas linhas acima da asfixia da tristeza mórbida. Uma flexão constante de evitar-me a felicidade pois quando me vem, das poucas vezes que me permito a ocorrência extenuante, isso – essa suposta felicidade – me toma a garganta, se enrola em minhas vias aéreas, se instala em meus pulmões. Os pequenos ensejos tornam-se euforias imensuráveis, ganham proporções intragáveis. As pequenas fugas da rotina fodida se tornam pesos insustentáveis para mim. Toda e qualquer alegria besta se transforma em um sufoco eufórico. Depois, o fenecer, a murchidão, o meu corpo frio se decompondo em sete camadas tenras de inexistência. A felicidade, por fim, reverbera uma crise julgando-me não merecedora de sentir qualquer coisa boa, coisa doce. Um equilíbrio constante entre a tristeza, apenas e tão somente uma linha acima do desespero,  e a desistência perene, pois tudo a mais do que isso torna-se eufórico, torna-se assombroso, torna-se uma praga me corroendo em carne viva.

E seus olhos continuam dançando entre o corpo meu, e meus dedos quase te tocam, e minha alma quase te deseja, e meu eu quase sente uma vontade de arriscar-me o tatear de sua tez. Mas depois da euforia vem um abismo denso demais para que eu possa suportar. Depois do toque teu, me afundo num híbrido obscuro do que sou. Não há necessidade ou habilidade de viver. E quando há olhos fugazes como os seus me atiçando à vida, eu me permito a vontade de arriscar meu abismo. Mesmo que depois da sua pele macia seja um fossa funda sugando meu corpo. Corpo que dança delineado no cerne apaixonante do seu ser tão próximo ao meu que juro, minha pequena, eu quase quero viver esta noite e acordar em meio ao caos do desiquilíbrio.