Seus olhos dançam com meu caos

Sinto meus olhos pesados e a tristeza começa a recair como um manto áspero em meus ombros. Seus olhos dançam sobre meu corpo e parece tão límpido e reluzente entrelaçar meus dedos aos teus.

Por deus, como eu gostaria que o tempo parasse agora, que esse instante fosse um cem fim de vezes replicado. Como eu queria que existir não me eximisse tanto para que eu pudesse reviver esse sopro de vida mais vezes. E seu corpo dança feito corpo que sente e se sente. Então eu me apego aos seus olhos vageantes só para me fazer crer que talvez, e apenas talvez, me seja permitido flanar despretensiosamente por ai. Seus olhos me despem a dúvida, o medo, as roupas. Me despem de mim e quase creio que minha alma está, enfim, visível. Sua presença come minha face amedrontada, come meus pés tortos, come meus hediondos medos insonsos. Sua presença come minha rebeldia e meu medo do existir. Meu medo de mim.

Os dias me ferem feito uma lança cega. As horas me cobram uma existência perene que há de me fazer fenecer sem nunca, de fato, me matar. Morrendo pétala por pétala que cai ao chão, mas nunca de fato enfraquece a raiz. A tristeza é uma camada cada dia mais grossa que arranha minha derme pálida.

É pra você, minha menina, que te escrevo esses versos tristes, ainda que eu não os queira lidos e sentidos por ti. Te escrevo porque ao lado teu meu eu vibrou e a vida correu um tanto a mais em minhas entranhas. Despertou o desejo insigne de arfar um pouco mais fundo. Doeu pra caralho.

Acontece às vezes. Digo, meus dias cinzas são rompidos por uma felicidade repentina que de feliz não tem nada. É uma euforia melancólica e desesperada. É uma dor aguda e chorosa que invade a ponta dos meus dedos, entra pelas narinas, recobre os poros meus. Uma melodia incessante e repetida à exaustão bem ao fundo de meus ouvidos. Sabe quando o barulho é de tamanha persistência que parece entranhado em nós? Acostumamos com a tristeza assim como acostumamos com o caos incômodo de uma rua movimentada às 3 da manhã. Mas, repare bem, nunca acostumamos com o silêncio absoluto. Isso nos enlouquece, nos deixa sonsos, nos desajuíza. A paz não nos é permitida.

E você tinha um jeito doce de dançar que me fez querer estar ali, querer te olhar e, por deus, viver. Ainda que não ao lado teu, pois não me caberia a pretensão de seus ritmos avulsos. Mas viver. E que, de um modo meu meio torto, meio errado, mas persistente, quisesse continuar mais um tempo habitando esse meu eu incômodo. Descabido eu.

Menina, seu sorriso de soslaio, outrossim, seu riso rompante. Sua estadia que enche a sala e meu eu, enche o mundo todo dessa essência que me torna mais egoísta por te desejar para que assim, quem saiba, eu me deseje aqui também.

Você é aquele sopro doce que range baixo a porta na madrugada. Você é um estandarte que me trouxe pra mim e isso me fere manchando o chão com um sangue frio e vermelho mais veludo do que o seu batom. O pior dos sentimentos é esse equilíbrio astuto que me ousa manter em vida, ainda que nunca de fato vivida. Uma necessidade muda de manter-me inerte e duas linhas acima da asfixia da tristeza mórbida. Uma flexão constante de evitar-me a felicidade pois quando me vem, das poucas vezes que me permito a ocorrência extenuante, isso – essa suposta felicidade – me toma a garganta, se enrola em minhas vias aéreas, se instala em meus pulmões. Os pequenos ensejos tornam-se euforias imensuráveis, ganham proporções intragáveis. As pequenas fugas da rotina fodida se tornam pesos insustentáveis para mim. Toda e qualquer alegria besta se transforma em um sufoco eufórico. Depois, o fenecer, a murchidão, o meu corpo frio se decompondo em sete camadas tenras de inexistência. A felicidade, por fim, reverbera uma crise julgando-me não merecedora de sentir qualquer coisa boa, coisa doce. Um equilíbrio constante entre a tristeza, apenas e tão somente uma linha acima do desespero,  e a desistência perene, pois tudo a mais do que isso torna-se eufórico, torna-se assombroso, torna-se uma praga me corroendo em carne viva.

E seus olhos continuam dançando entre o corpo meu, e meus dedos quase te tocam, e minha alma quase te deseja, e meu eu quase sente uma vontade de arriscar-me o tatear de sua tez. Mas depois da euforia vem um abismo denso demais para que eu possa suportar. Depois do toque teu, me afundo num híbrido obscuro do que sou. Não há necessidade ou habilidade de viver. E quando há olhos fugazes como os seus me atiçando à vida, eu me permito a vontade de arriscar meu abismo. Mesmo que depois da sua pele macia seja um fossa funda sugando meu corpo. Corpo que dança delineado no cerne apaixonante do seu ser tão próximo ao meu que juro, minha pequena, eu quase quero viver esta noite e acordar em meio ao caos do desiquilíbrio.

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