feridas

Eu não queria mais olhar para as pétalas caídas, nem para os vidros estilhaçados, nem para os cacos caídos em mil pedaços ao chão. Eu não queria olhar mais para mim, nem para você. Eu não queria sentir o peso de continuar aqui dentro, onde tudo é um caos, nem sentir o desapreço de deitar mais uma noite sendo vencida pelo meu inexistir.

O velho rádio toca uma melodia ardida, um ritmo que penetra em cada canto dessa sala maldita. Mas ainda é melhor do que o silêncio. Ainda é melhor do que o barulho alto da falta de afeto. Ainda é melhor do que o descompasso dos meus pedaços caindo ao chão.

Eu não posso mais te escrever boas vindas. Eu não sei mais te dizer amenidades. Eu não sei mais calar e, por deus, eu não posso mais te machucar, porque suas feridas me matam. Suas dores meu atingem feito uma lança cega bem no meio de meu peito. Mas se não te arranco de mim, morro em cem gotejares podres e sórdidos de desamor a mim. Se não te deixo cartas escritas à sangue, me traio, me desespero, me sufoco. E suas dores me matam e ferem, ainda que sua presença me asfixie. Seus olhos piscam para me ver mais límpida e eu só sei fenecer entre três lágrimas secas em minha pele.

Deitei no meio da sala, no chão frio, no caos interno. Deitei em suas palavras doces e atitudes egoístas, deitei em seu desamor disfarçado de bem-me-quer. Me acolhi entre a porra da sua necessidade de me machucar, me acolhi em suas mãos duras e olhos reprobatórios. Entre seu cabelo macio e juras de quem me protege mesmo que sem nunca, de fato, me assegurar calmaria. Me deitei em cem brasas acesas em seu existir podre. Deixei você, sendo brasa, me marcar a pele e a alma. Deixei você, sendo fogo, me ferir cada camada da derme. Deixei você perfurar minhas entranhas e costurar a tristeza em meu peito. Agora quero arrancar as costelas para ver se consigo salvar alguma coisa em mim. Agora sinto que um buraco flamejante me comendo a pele seria menos dolorido do que continuar a existir assim – quase que não existindo.

Me aconcheguei no fim das minhas forças. Na inexpressão da minha vibração. Deixei seus cacos de vidro sujos me perfurarem as primeiras camadas da pele, uma dor prolongada e ardida, mas que me faz sentir. Me faz sentir. Me faz sentir. Logo eu que, inexoravelmente, sentia o ópio, o regozijo, sentia a penúria do estar aqui ou sentia nada. Sentir a ferida do corpo me recobre mais uma noite e eu me aninho nesse buraco fúnebre de acordar entre seus desafetos.

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