Oito pétalas mortas, mas a nona resiste em mim feito alma

O amor me protege dos ventos frios, me cobre os olhos dos dias nublados. O amor me dá cor ao cinza, ao breu, me dá luz em meio ao caminho solitário. Me aquece as pontas dos dedos, percorre as veias e envolve meu peito num misto de agonia e bem-querer. O amor me faz parecer seguro estar em pé à beira do precipício sem medo de olhar para baixo.

O amor quando chega é um vento ameno em dias quentes e um casaco impermeável para as inseguranças do mundo. Mas a vida ainda é um continuar caminhando. E eu que cheguei aqui com o receio e a dor e os passos trôpegos de quem mal caminha e, por deus, se caminho, percorro sem direção, titubeio entre os passos frouxos que suspeito me levarem à sua direção.

Ainda que as ruas sejam calmas, ainda que os afetos venham embrulhados nessas esperanças sorrateiras de calmaria, por toda uma vida a estrada foi um despetalar de mal-me-quer. Então protejo esse caule, esse pólen quase sem flor, quase seco. Deixo que o amor me roube o ar, as vísceras. Deixo que me tire as roupas, a fala, que me desabroche o riso de modo a me deixar vulnerável, despida das roupas do âmago. Mas protejo entre meus dedos fracos e ainda gelados essa flor quase morta. Como quem protege o que restou d’alma. Como quem morreu oito vezes, mas guarda um resquício tenro dessa nona vida na petulante e audaciosa vontade de fazê-la viver, fazê-la segura. São oito pétalas mortas, secas e estraçalhadas que caíram ao chão frio da indiferença, mas a nona resiste em mim feito alma.

Meu cerne se espalhou em cem estilhaços afiados e minhas vísceras sucumbem aos meus passos meio tortos, meio arrastados. Mas a porra da nona parte que ainda vive em mim eu guardo. E se puder, por deus, se souber entender que admito pular sem medo do vigésimo andar contanto que me permitas debruçar-me em proteção sobre minha flor quase morta, eu aceito qualquer pedaço dessa loucura que chamam de afeto. Pois em mim tudo é vulnerável, mutável, tudo dói pra caralho, e essa nona pétala quase morta resiste como uma quem flanou à beira do abismo e olhou de volta para si mesmo. Eu colhi a flor fenecida e deixei-a ser essa quase morte dentro de mim. Agora sou essa última tonalidade torpe de flor. Sou o que restou e protejo-me para que assim, e tão somente assim, um dia alguém saiba me fazer reflorescer.

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