o inferno é no décimo sétimo andar

Então é isso. No fim dos dias nublados e cinzas e pálidos, no fim dos tempos, resta-me somente a mim. No fim das contas sou eu lidando com o amontoado do que restou desse caos, desse devaneio ilógico e inexorável que sou.

Acendo um cigarro e sinto meu corpo pesar docemente. Depois o alívio, a paz, a consciência podre de que ainda me pertenço e, por deus, assim será. Já caiu do décimo sétimo andar, menina? Seu corpo é uma lâmina pulverizada no ar. Ninguém se importa com uma alma sendo, dia após dia, arremessada dos mais árduos abismos, mas um corpo choca. Um corpo caindo é feito uma renúncia ilegal dessa porra toda que a gente não quer ou não sabe viver.

Já amou hoje, pequena? Cem dias de solidão e reclusão e uma alma cada vez mais insigne emudecida em si mesma. Depois a euforia. O afeto transbordando pelos cantos relapsos da derme. O amor – que besteira! Como pode acreditar no amor se bastaram três esquinas mal iluminadas para que seus olhos sejam substituídos por um corpo que encaixa seus quadris com tamanha maestria em quem nunca te jurou amor? Como pode crer em afeto se você doaria sua alma, acolheria outras centenas de almas e corpos e bocas e mãos torpes e sórdidas se as esquinas da vida lhe permitissem?

Já olhou seus olhos hoje, pequena? Nos meus queima uma incessante necessidade de gritar. Um som mudo que me corrói a espinha dorsal, assume uma dor física, asfixia minha alma, se instala em minhas entranhas. Em meus olhos refletem-se cem portas trancadas de quem eu me recuso ser. Mas daria a paz que não tenho para abrir todas elas. Um demônio perfurando meus timbres com estacas do meu próprio ser. Se é que sou.

Meu corpo caiu do mais alto espectro da minha dor. Estatelado no meio da sua sala, da sua alma. Doeu menos do que meus últimos três dias de consciência. Minha essência sôfrega está há meses estilhaçada ao chão e ninguém sequer notou. Te amei até o ardor do sentimento cessar, te amei até o fim dos dias só para saber que os dias, por fim, acabariam. Agora sinto nada. Uma prévia de caos e meu corpo ocupa a rua.

Se eu tivesse a capacidade enfadonha de viver, eu me sentava entre a opulenta luz amarelada de uma esquina suja e te tragava a alma. Seu soubesse viver essas porras de dias sujos, eu trocava de dor, eu te tocava e te comia, engolia em pedaços de um amor fodido que me matou e ninguém viu. Mas continuaria morrendo de amor por tantos outros olhos cheios de pudor.

Se eu soubesse viver, eu secava essas lágrimas e te deitava em meus braços. Mas eu caí da janela enquanto você juntava suas roupas manchadas de um afeto alheio. Acendo um cigarro que resta em meu bolso, pois você me é um gosto amargo que não mais acende em mim. Ninguém liga pr’alma ferida nessa vida fodida.

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