epiderme

Eu queria escrever alguma coisa bonita. Queria te deixar cem linhas de um poema rimado e de um história calêndula. Queria que minha letra soasse segura e que a porra do papel não evidenciasse que andei chorando. Quero limpar os cinzeiros antes de partir, esvaziar as garrafas, quero trocar o disco. Essa droga de música triste não melhora nada o timbre persistente dessa casa, desse meu eu.

Os dias correram até que amenos, menina. Passaram entre idas e vindas ao trabalho, sorrisos apagados e um certa tranquilidade nesse meu eu. Mas assim como o mar calmo precede ondas catastróficas, em mim a quase paz antecede a asfixia sem fim. É como olhar seus olhos e não saber mais o que ousou me encantar. É como precisar quebrar os espelhos de casa para que, porra, nada mais me lembre que eu continuo exatamente aqui, para que nada mais me quebre.

Andei fechando muitas portas nos últimos anos, e quando alguém decide, por fim, manter alguma aberta, eu sinto cada fragmento podre de mim esvaindo. Mas não é como se isso fosse um alívio, um desvincilhar-me de minhas feridas. É como se cada pedaço nefasto meu pingasse em gotas amargas nesse chão frio. É como ver meus dedos rasgando minhas cicatrizes e não faço ideia se há mais dor em olhar meu vazio interno ou sentir a pele se dilacerar em mil pecados sórdidos. Não ouso existir. Por deus, pedi a ele, à energias, ao universo ou qualquer porra que possa haver entre essa linha humana e sublime, me deixa existir. Ajoelhei em minha frágil e perene estadia em mim, pedi  a deus ou ao diabo para me deixar existir. Assim, só existindo de fato eu posso morrer e deixar a paz florescer como um girassol que percorre os raios. Talvez, com alguma sorte, sobrou espaço para algo a mais em mim.

Eu não faço ideia mais por onde andam suas falsas alegrias, seus timbres amenos. Jurei não deixar nada mais doer mim, jurei não terminar os dias com frases amargas e agonias intragáveis. Por isso me ludibrio em minhas palavras, por isso te lanço falsas promessas e sorrisos enganosos. Ainda minto e me dou conta que bordo um alegria que não sou capaz de praticar. Não me entenda mal, a alegria que te juro é o primeiro ponto a ser puxado nessa minha cicatriz. Como quem atira num pássaro recém liberto, você me fere sem sequer me matar. Agonizo em dias de frio.

Agora eu queimo a brasa do cigarro em minha pele só pra ter certeza que ainda resisto. Sentir dói pra caralho, mas não sentir perfura sete camadas e é um ardido fodido. Se meu peito fosse folha, ele estaria na décima flâmula, queimando de dentro para fora e espalhando cinzas. Se eu fosse qualquer merda além disso que sou, eu estaria debruçada à luz do sol de um terraço qualquer. Eu terminaria esse vinho barato e, antes de terminar essa carteira de cigarros, o sol me tocaria. Deus finalmente me traria a paz. Mas eu não acredito em deus e, entre uma cerveja quente e um antidepressivo, eu vivi três infernos diferentes. Deus também não acredita em meus suplícios, ele não me deu a benção da paz. Nem a coragem do fim. Eu só queimei a pele para lembrar que, mesmo não sentido, eu sinto muito.

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