O inferno é um afeto maldito me queimando as mãos.

Esse é um daqueles malditos dias em que nada te acalma, que nada te traz paz, que nada sucumbe ao silêncio afável de uma paz que, talvez, a gente sequer tenha tido. Hoje as músicas foram tristes, os filmes não ma atraíram e corpo nenhum me atiçou a euforia afetiva.

Milhares de almas vagando entre becos sujos e festas caóticas, sequer uma alma para te recolher em braços confortáveis abraços apertados. Alma também dói, minha pequena. A minha tem sido uma ferida exposta há dias e não há muito o que eu possa ou saiba, ou possa querer fazer. Deixo minha aura quase que fora de mim. Já olhou um corpo se decompor bem em frente aos olhos teus e, diante de uma ojeriza extrema, tudo que resta é uma paz por aquele que finalmente se libertara de si mesmo?

Mas que merda a gente tá fazendo com isso tudo? Desisti de meus dias e minhas noites, ancorei minha angústia nesse quarto escuro e, por deus, vivo num ambíguo desejo que não abram a porta, mas me resgatem daqui.

Os dias foram passando e eu me calei num silêncio sombrio dentro de mim mesma. Três saídas em minha frente e tudo que faço é sentar-me em minha inexistência e deixar que meus monstros comam as pontas de meus dedos, meus braços, pernas e, finalmente, me devorem. Assim, quase numa utopia escancarada, eu estarei enfim dentro de mim. Deixo o amargo de minhas flores desabrocharem na janela escura. Evito frestas de sol e espero que os dias morram junto comigo. Meus quartos tornam-se refúgio extenuantes que me servem de alimento e veneno. Sobrevivo pois me recuso a viver fora dele. Me mato porque toda vida se constitui fora daqui, fora de mim. Sou um abismo intransigente de fenecer. A vida passou e essa porra de nada mais persiste em mim feito um linha fina e inabalável. Respiro a última essência envenenada e só me arde o pulmão. Nada mata o que há tempo já morrera.

Então alguém chega, chega com risos falos e uma insegurança latente que te faz querer arriscar, mas atiça todo o estupor amedrontado em ti. Alguém vem com tudo que há tempo você se esforçou para se livrar. Ninguém tem, sequer deveria ter, paciência para lidar com quem não sabe caminhar à beira do abismo. Eu compreendo que o afeto é pulo cego. Mas, deus, jurei querer ser exatamente isso que me transformei. Ainda que a solidão me fira a sete estacas cegas, ainda que o ferro afunde meu peito e faça meu eu inteiro se contorcer, eu prefiro a solidão do que dividir quem sou, do que expor tudo que demorei tanto para introspectar em mim, sem linhas ostantáveis, sem falsas ilusões. Não quero alguém me roubando de mim e me deixando vulnerável ao meu próprio eu.

Arrumo minhas malas. Bobagem, sequer as fiz, se as fiz, sequer as trouxe. Vim duas ou três vezes e sua intensidade me trouxe uma temorosa lembrança de minha ausência. Me deparo com tudo que tu me és e que, um dia, alguém me fora. Olha, quanta sordidez. O ser humano é esse poço de mal amores, mal afetos, palavras mal ditas, malditas palavras. O ser humano é um acúmulo intenso de deveres e a gente cobra tanto que o outro tenha por a gente uma porra danada de responsabilidade afetiva. Eu me debruço nessa janela vazia, fumo meu cigarro amargo, eu trago o afeto que queria, mas sou humanamente incapaz de lidar. Eu sei dos meus conceitos e meus cigarros mal acabados, fotografo mentalmente minha própria cena forçada de desinteresse só para que você lembre que eu quis, porra, como eu quis ficar e ser doce, e ser alguém capaz de ser qualquer coisa boa para você. Mas eu não posso matar a última essência do que resta em mim. Por isso eu me vou.

Reviro as gavetas atrás de seus isqueiros, garrafas mal acabadas de vinho, talvez um pingente que me dera de presente. Reviro a gaveta atrás de um afeto que jurei ser capaz de querer e saber lidar e saber retribuir. Não há nada.

Pela última noite, me deito nessa cama grande demais e me cubro com as ausências, com suas palavras falaciosas de meu bem-me-quer, e sua repugnância almática me aquecendo a insegurança. Me cubro com o oco do meu eu e a certeza que sou nada mais do que alguém que te vê e te quer e te ama apenas, e tão somente apenas, ao longe. Seu corpo perto, sua alma perto, suas porra de expressão exaltada em minha frente me oprime, me encurrala, me retoma a tudo aquilo que um dia jurei nunca mais aceitar ser. Não aceito. Por deus, não quero mais aceitar ser quem luta contra a última essência de si. Tudo em mim morreu, senão um décimo fragmento que juntei de meu estilhaçar. É ele que manter mantém, ainda que intocável, sensível e vulnerável, me mentém obstinada.

Se for pra vir, deus, se for pra entrelaçar minh’alma a algo além, tem que que me dar chão seguro, tem que me olhar além desse frágil eu, tem que garantir a paz e o caos das palavras, mas nunca me tirar acalmaria. Meu corpo arfa a solidão. Ninguém entra. Ninguém há de entrar. Por deus, o inferno são almas sem copo e corpos sem alma. O Inferno é você que não me deixa partir, mas me prende a tudo que jurei esquecer. O inferno é um afeto maldito me queimando as mãos.

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