Silêncio

Não tem ninguém do lado de fora. Mas tudo bem, também não há ninguém aqui dentro. Essas paredes frias e finas deixam escapar o eco do silêncio. Essas rachaduras me deixam vislumbrar aquilo que evito encontrar nos espelhos da alma. Esse abismo entre a existência e o pertencimento. Ah, bobagem, nunca existiu nada além desse meu eu torpe e sujo e cansado.

Ah, tenho estado tão cansada nesses últimos tempos. Nada mais do que um corpo sem cerne, um amontoado de feridas que não sangram mais vagando em decomposição da alma. Os dias já foram doces, foram bons, já foram dias. Agora a paz é um caco reluzente no canto oposto da minha sala. A calmaria é um espelho estilhaçado que ocupa a parede inversa dessa casa. Tudo que posso, por deus, tudo que me é cabível de ser feito é me sentar num canto mal iluminado desse cômodo e observar o que restou dos dias bons. Quase chego a tocar o esplendor de reviver. Mas o que me tece os dedos é tão somente o fenecer em três tons abaixo de um sussurro.

Seis flores debruçadas nesse chão frio e todas elas morrem sem cor. Se despetalando em um fulgor flamejante. Não há fogo que queime tanto quanto a solidão. Não há chama que encurte mais a essência doce de uma pétala do que a inexpressividade de ser sufocada pela queda. Seis flores caindo em um continum, um ciclo efêmero e constante, curto e inevitável. Antes mesmo da morte tocar o caule, essas malditas flores retornam a cair. O abismo não cessa, pois o medo o alimenta, o rega, o faz florescer. A solidão é um barulho surdo de uma flor morta tocando o chão.

Fui me dilacerando e você nem estava no terceiro andar ainda

Passei três dias tentado tirar de mim essa agonia extenuante, essas palavras um tanto quanto duras, um tanto quanto sujas. Passei dias de penúria, dias de escuridão tenra. Passei dias em que o corpo frio do fenecer se debruçou ao meu lado, me tocou as costas da mão. Fechei os olhos e morri antes de você chegar.

A gente vai escrevendo pra salvar o que restou da alma. Se é que ainda resta. Mas alguma coisa aqui dentro ainda agoniza, ainda reverbera, então a gente enche centenas de linhas sem sentido só pra fazer valer esse eco mudo, esse eco repetido à exaustão de um socorro que não vem e que, por deus, não cessa também.

Eu não queria escrever sobre cafés frios, cigarros mal tragados, sobre essa porra de quarto mal iluminado. Eu não queria alimentar a quimera exaurida de sentir. Mas eu já nem sinto mais e se, por um fragmento dos ponteiros lentos desse relógio, eu sentir, sinto demais. Caminho numa linha fina demais para meus pés cansados e meus joelhos frouxos. Caminho numa corda bamba à mil metros do chão e as paredes do abismo gritam em timbres dos meus medos. O vazio sou eu morrendo de fome de mim. O chão duro é feito da minha alma estirada e decomposta de aflição. Meu cerne está corroendo meu eu de solidão e nem mesmo me levantei da cama.

Há três dias deixei meu afeto recostado no trigésimo andar e ninguém veio buscar. Deixei meus bilhetes pelas ruas vazias, pelas esquinas úmidas, pelos cafés abafados. Deixei meus pedidos de socorro pelos corpos mal amados que me visitaram. No fim das contas, não deixei ninguém vir. Ninguém me ver. Tudo bem. Morri pouco antes de você chegar só para não morrer bem diante dos seus olhos. Fui me dilacerando e você nem estava no terceiro andar ainda. Mas tudo bem, eu deixei bilhetes bonitos pela casa. Deixei cafés novos e cigarros intactos. Deixei minha alma ressonando em sete tons doces do seu timbre. Eu fechei os olhos antes de você chegar só para não te ver entrar.

tudo de ti que não me cabe

Você é o canto da sala que eu não consigo atravessar. Você é o perfume concentrado entre o caule e a pétala vívida da flor que eu não alcanço. Talvez você seja aquela sombra esguia que me atiça e suscita curiosidade na sala ao lado. Não, não. Você é a paz que me chegou em uma tarde de caos. E a merda do ser humano é estar preso sempre em um filme ruim em que ninguém pode te salvar. Te juro, menina, como tentei me manter em pé, equilibrada sobre meus pés tortos, sapatilhas sujas, sobre minhas insustentável inexistência sôfrega.

Eu queria te deixar um café e um boa carta. Queria dizer como o sol parecia tão afável quando frestas tocavam-lhe a pele branca. Queria que os ponteiros longos do relógio se arrastassem só para que eu permanecesse sentada aqui, ainda que longe, apenas para admirar tudo de ti que não me cabe: seu sorriso e inquietude. Sua paz e ousadia. Sua mania de tremer o lábio e de desviar os olhos. Parece bobagem, uma porra mal escrita, mas eu queria que a última coisa minha soasse bonita. Então escrevi sobre você.

Com algum asinino divino, meus planos falhem miseravelmente e amanha seja um novo dia. Mas esses tempo andaram matando os resquícios de amor em mim, de vida, de esperança. Os dias comeram minha carne, dedos e braços. Engoliram minhas lágrimas e me fizeram chorar para dentro. Eu não queria mesmo ser alguém se atirando das janelas, nem caminhando à esmo em ruas de morte. Eu não queria mais ler sobre a solidão de projetar-separa dentro evitando as dores externas. Mas também não ouso crer que alguém haveria de me salvar. O inferno me cercou em um espiral infinito de memórias remoídas. Me sentei no centro do meu melindro e deixei que o fogo fosse, aos poucos, me tronando uma brasa que mal queima.

Te escrevo essas últimas palavras para que tudo que foi chorado fique na folha virada. Por deus, eu olharia por cem dias seu riso e ainda assim os dias seriam poucos para lhe caber a felicidade. Agora eu caminho feito equilibrista no alto da corda banda, em escorrego entre um arfar denso de quem abandona metade dos dias e pede socorro num titubear duvidoso de salvação. Se eu pudesse ser qualquer coisa, por deus, eu seria uma paz danada, eu seria um livro entreaberto no seu poema predileto. Se eu pudesse ser o encanto que nasce de deus olhos cansados, eu seria. Mas se eu pudesse me ser em qualquer outra coisa além de mim, eu correria vinte quadras escuras só para deixar meu passado perdido e, quem sabe, a dor de me habitar fosso derrubada numa esquina suja.

Se eu pudesse, menina, eu me sentava numa esquina mal iluminada e me desmontava para ver se sobra algo a ser salvo. Se sobrar, queria te entregar. Mas agora a esquina parece gelada, o fim é um chuva fina caindo em minha cabeça e ninguém vai notar se em me escorar nessas paredes sujas de desafeto.

Antes de você chegar em decidira quebrar os espelhos, limpara casa, varrer as calçadas, desmanchar os laços. Deixei que a dor fosse maior do que a vontade ou a capacidade de sentir qualquer coisa. E se deixo qualquer coisa mal acabada ou mal escrita foi porque seus olhos dispendiosos me atrapalham os planos. Não queria esquecer nada na cama ou na mesa, mas acho que deixei minha alma e meu afeto todinhos lá. Cuida do que foi teu, cuida da melhor parte final dos dias maus.

as janelas altas também choram

Eu acho que tudo bem ser invadida pela angústia, tudo bem a dor e o medo nos tomar pelas mãos. Acontece. Olha pra você, menina. Nenhum dos seus dias mais doces e leves – mesmo que sempre abrangentes -, seriam capazes de secar suas dores hoje. Suas lágrimas pesadas são riscos de sangue em sua pele branca.

Olha para esse gente toda.. Hoje nem meus cigarros me assossegariam o peito e minha alma se retorce dentro de mim. A multidão virou uma massa branca e homogênea e eu não faço ideia para onde eu tô correndo. Tudo em mim dói, ainda que não haja mais o que se sentir. Eu poderia brincar de morrer dez vezes e nenhuma me daria medo pois o inferno consumiu meu peito, minha alma e minha esperança. Que tipo de ser humano sujo persiste sem esperança alguma? Nem as cervejas geladas, os cigarros fortes, as bebidas baratas que queimam meu estômago me tiram essa aflição e furor de flertar com o fim. Por deus, minha pequena, como eu tenho tentado viver nesse caos que sou. Tenho me escorado nas paredes de minha alma e, por garantia ou covardia, fechei as janelas do apartamento. Rabisco pedidos de socorro e atiro em pequenos papéis rasgados. Ninguém nunca sobe. Ninguém nunca olha para cima. Bando de filhos da puta do caralho. Todos vendados por suas vidas repetidas e suas lascividades cheias de pudor. Que tragédia somos nós.

Esses dias bebi até quase sentir a alegria de estar fora de mim me tocar as costas da mão. Esses dias – lembra-se do vinho que você deixou aqui?- pois bem, dias desses, eu, vinho, umas músicas tristes e senti minha dor diminuir um tiquinho a cada gole. Mas foi bem pouco, te juro. Sorri de leve pensando que talvez haja gente por ai que passe bem pelos dias, ao menos a maioria deles. Me escorei na janela e o chão era um resquício de vida. Morrer não tem glamour. Não ouse achar que falo isso como quem ressoa Bukowski e seus poemas solitários. Morrer é podre, é sujo, é desesperador. É passar os dias tentando arrancar de si algo que, no fundo, é inteiramente você. Você é a dor, o medo e a ansiedade. É a raiva, o receio e a queda do décimo andar. Você é a brasa quente queimando a pele só para sentir de novo qualquer coisa que te garante que, cedo ou tarde, para de doer. O sangue para, as cicatrizes fecham, a dor cessa. O inferno de dentro não. Você se senta no vão das portas e se permite verbalizar um quase socorro, uma quase oração “deus, universo ou o diabo que seja, me leva de mim, anda insuportável existir”. Mas nada acontece. Nada nunca acontece além da dor continuar e corroer sua essência. Um fogo que te tranca a garganta e afasta você dos olhos audaciosos de quem, insolitamente, vive.

Aqui do décimo andar não dá pra ver direito, mas as janelas altas também choram, o céu muda um pouco de cor quando alguém extremamente bêbado e quase feliz se debruça no parapeito e pede, por deus, se há vida depois de fenecer de dentro para fora, me deixa viver. Acho que era só porque lembrei que precisaria comprar outro vinho para você, outro cigarro. Te liguei, mas não atendeu. Chamou três, quatro, dez vezes, já nem sei. Tudo bem, joguei alguns papéis de socorro, mas não havia ninguém na rua. Pensei em pedir ajuda, mas só consegui me deitar no chão da sala e pedir pra vida, enfim, me deixar viver, me deixar morrer. Sem beleza ou glamour, sem poesia barata embalando essa porra de cena mal contada, mal narrada. Por dentro invejei aquela flor que acordou seca e despetalada. Joguei o resto de vinho nela e fechei os olhos. Me deixa ser flor, me deixa ser flor, me deixa derrubar uma pétala do décimo andar.